O dia em que a Lei Áurea foi parar na gaveta

por Bernardo Lago Alves

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O ano era 1a.G. (antes do Golpe, ou 2015, pra quem não lembra das panelas).
 
Luís (identificação fictícia), 30 e poucos anos, apareceu no consultório reclamando de uma dor nas costas, bem ali na lombar, há uns 6 meses. “Só na lombar mesmo?”. “Só na lombar mesmo, doutor.”
 
Além da dor só na lombar mesmo, Luís disse que não estava dormindo direito, todo dia sentia uma batedeira no peito que vinha do nada e depois passava, andava meio irritado e percebeu que estava bebendo mais para conseguir relaxar.
Além da dor só na lombar mesmo, da insônia, da taquicardia, da irritação e do álcool, Luís também contou que foi “criado na casa de dona Sônia, onde meu pai morava e trabalhava de copeiro. Eu cresci junto com o Pedro, filho dela, a gente era da mesma idade e se dava super bem.”
“Só que aí, doutor, a gente foi crescendo, meu pai aposentou, eu fui pegando as funções dele e o Pedro entrou na faculdade. Foi aí que ele começou a ficar ruim comigo, a me esculachar, a me tratar pior que empregado. Ele queria me levar pra trabalhar na casa nova dele, só que dona Sônia não deixava”
“Como assim não deixava? E ninguém perguntou pra você?”
“Doutor, no dia que tirei minha carteira de trabalho, dona Sônia pegou ela de mim e guardou na gaveta do escritório dela. Faz uns 6 meses, o Pedro entrou lá, roubou minha carteira de trabalho e guardou na gaveta da casa nova dele… e agora eu tô trabalhando pra ele. Eles nunca assinaram nem nada, eu recebo meio salário e em troca faço as refeições e durmo lá. E seu Pedro continua me tratando mal, me xinga, não me dá descanso, não deixa eu visitar minha mãe. Vai ver é por isso que eu tô assim.”
Que fazer numa hora dessas? Sem um segundo de dúvida, olhei bem fundo nos olhos de Luís e decretei:
“Luís, você tem que aproveitar as oportunidades que a vida te dá. Já que sua carteira de trabalho foi parar na gaveta, esta é a sua deixa para virar em-pre-en-de-dor!”
Claro que não falei isso, né, pô. Combinei uma consulta com a assistente social e orientei como procurar a Defensoria Pública. Mas se fosse agora, quem sabe? Ração pra ser humano, por exemplo, já pode dar…

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