Pedido

exames-diagnostico

Por Rodrigo Lima

Ela tinha uns 70 e poucos anos. Chegou ao consultório pra dizer que tomava remédios para controlar a pressão, que precisava da receita deles pra poder pegar na Farmácia Popular, essas coisas. Se queixava também de dor de cabeça, sem queixas associadas, sem desencadeantes, sem fatores de alívio, aquelas dores que são apontadas na cabeça, mas parece que são na alma. Perguntei se dormia bem, se tinha uma rotina que considerava normal, se a dor atrapalhava, essas coisas. Nada de anormal.

Nessas horas eu sei que vem coisa. Sempre vem. Pedi licença pra fazer a receita dos remédios para a pressão, pra dar um tempo a ela e a mim também. Em poucos segundos ela disse:

– Doutor, tem outra coisa que eu queria lhe pedir, mas não sei se o senhor pode fazer. Se não puder, sem problemas.

É o tipo do prenúncio de um pedido de remédio pra dormir pra irmã, ou coisa do tipo. Eu sempre nego, mas me toma um tempo, e se a negativa não for cuidadosa compromete o vínculo. Não é meu momento predileto, mas tento ser atencioso ao mesmo tempo que desencorajo pedidos mais abusivos. A gente cria nossas maneiras de se defender…

– Dona Maria, se eu puder fazer considere feito. Mas tem muita coisa que eu não posso…do que a senhora tá precisando?
– É o seguinte, doutor. Meu marido faleceu há 5 meses. Completou semana passada. Ele era muito doente, sabe? Sempre bebeu muito, comia de tudo, vivia como queria. Há uns anos teve um derrame e ficou acamado. Eu que cuidava dele. Não faltava nada pra aquele homem, doutor. Só que um dia ele passou muito mal e morreu. Eu não sei direito o que aconteceu, ele desmaiou e teve uma convulsão, a gente chamou o SAMU, levamos ele pra UPA, já era noite. No outro dia de manhã ele morreu. Me deram o atestado de óbito, tinha lá “pancicitopia” e “hiperpotassia”, mas eu não sei o que é isso, e eu nunca soube de que ele morreu.
– Certo. A senhora quer então que eu olhe o prontuário dele pra lhe dizer algo?
– Se o senhor puder…porque eu fui perguntar lá na UPA mas disseram que não podiam me dar a ficha dele, que eu teria que falar com o diretor mas que ele só ia me dar se fosse pedido de um juiz.
– Bem, eu não posso te dar a ficha dele, dona Maria. Mas eu posso tentar olhar aqui no sistema e dizer alguma coisa à senhora, pode ser?
– Ah doutor, se puder eu agradeço.

Peguei os dados do marido e fui ver o prontuário dele. Bendito prontuário eletrônico integrado. Deu pra ver que ele tinha dado entrada na UPA com a glicose muito baixa, em torno de 30, o que provavelmente provocou as convulsões. Teve paradas cardíacas, foi reanimado, e ficou em estado grave aguardando resultados de exames e vaga em UTI. Os exames mostravam as alterações que foram colocadas na declaração de óbito: pancitopenia grave e hiperpotassemia. Se ele saísse daquele quadro grave provavelmente iriam investigar doenças da medula óssea, até uma leucemia era possível naquele quadro. Só que com pouco mais de 18 horas de internação teve a quarta parada cardíaca, e essa não foi revertida. Faleceu ali.

Olhei de volta pra dona Maria. Não sei que cara fiz, tentava ser solidário, mas ela sorriu tímida, acho que mais pra ser simpática. Deve ter percebido que eu tinha algo pra falar que interessava a ela.

– Dona Maria…então: acabei de olhar aqui. Enquanto lia, tava pensando no motivo da senhora estar tão angustiada com isso tudo. Claro que perder o marido é difícil, e ainda mais quando ele era tão dependente da senhora, a gente acaba ficando mais ligado ainda, né? Fiquei imaginando aqui se a senhora, além da saudade dele, não estaria achando que poderia ter feito algo a mais por ele…me chamou a atenção quando a senhora enfatizou que “não faltava nada pra ele”. Então deixa eu dizer uma coisa: a senhora fez tudo o que podia. Ele chegou na UPA num quadro grave, mas não foi por falta de cuidado não. Os exames dele mostravam uma doença grave do sangue, que provavelmente se instalou de forma muito rápida. Ele já vinha muito debilitado, a senhora mesmo falou. E uma doença grave assim quando encontra um corpo mais fraquinho acaba vindo de um jeito que a gente não consegue curar. Então deixa eu falar de forma bem clara: a senhora não teve culpa nenhuma não. Não tinha nada que a senhora pudesse ter feito além do tanto que já fez. Cuidou dele quando ele tinha saúde mas bebia muito, cuidou quando adoeceu, e cuidou por vários anos dele em cima da cama. A senhora fez muito. Se ele não tivesse alguém assim cuidando dele, ele tinha morrido era antes.

Nessa hora eu já me arrepiava de olhar pra ela. O olho dela, que estava com uma lágrima se equilibrando pra não cair, de repente deixou de olhar pra mim e voltou-se pra cima, numa fração de segundo, e depois me encarou novamente. Só que agora a feição era de paz, de alívio.

– Doutor, muito obrigado. Me desculpe lhe dar esse trabalho, mas valeu a pena, o senhor ajudou demais. Eu tava com isso na cabeça, sabe? Eu cuidava dele tão bem.
– Eu imagino. Mas agora tá na hora de deixar ele ir, e de colocar essas idéias pra fora. A senhora entendeu direitinho o que eu falei?
– Entendi sim.

Mas ainda faltava alguma coisa. Ela permanecia imóvel na cadeira, como que esperando alguma coisa.

– A senhora quer levar os exames de sangue dele? Que mostravam o que ele tinha, a doença do sangue? Eu posso imprimir aqui pra senhora.
– Posso, doutor?
– Pode.

Imprimi os exames. Numa avaliação precipitada, pra ela, olhar aquele papel não fazia qualquer sentido, dados técnicos, abreviações, números. Mas eu sabia que aquilo ali tinha outro sentido.

– Tá aqui, dona Maria. Os últimos exames do seu marido. São seus agora. A senhora guarda como quiser.

Aquela lágrima finalmente caiu. Pequena. Mas parece ter lavado a alma, e devolveu um sorriso àquele rosto. Ela levantou, agradeceu, e foi embora. Parece que esqueceu da dor de cabeça. E nem levou a receita dos remédios da pressão.

 

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