Olho no olho

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Por  Luis Vilela

Entra na sala Sr. alto, polaco, 71 anos, 98 kg, olhar penetrante por detrás de um óculos fundo de garrafa, mas que ainda deixava ver seus olhos azuis da cor do mar.
Na queixa anotado pela enfermagem estava escrito: quer receita para gota.
– Olá, tudo bem? O que posso ajudar?
– Deixa eu te explicar. Meu caso é complicado. Eu estou voltando do Mato Grosso do Sul, acabei de trocar meu marca-passo há 10 dias e o médico de lá mandou que mostrasse para o Sr. para tirar os pontos.
– Tudo bem. Deixa eu ver… a ferida está com aspectos de infecção. Vou pedir para enfermeira tirar alguns pontos e te passar antibiótico. Em uma semana retorna para que reavaliemos. O que mais?
– Tenho um comichão nos pés que caminha pelo corpo. É gota. Quero um remédio.
– Mas o Sr. tem ou já teve dor no pé e tornozelo.. já ficou inflamado? O Sr. está com dor?
– Já uma vez no peito do pé. Mas agora tô sem dor.
– Antes de te passar um remédio vou pedir um exame. Que remédios você está usando?
Após ver a lista com vários medicamentos para insuficiência cardíaca, anotar no prontuário, e pedir os exames e incluir o ácido úrico, olho para ele e digo:
– Muito bem! Está aqui. Posso te ajudar em mais alguma coisa?
– Dr. eu sou muito nervoso. Tenho 2 filhos. Um é unha e carne comigo o outro não converso há mais de ano. Não vejo mais minha nora, meus netos…
Seus olhos ficam marejados ele retira o óculos e eu ofereço um papel toalha.
– Eu estou velho, mas quando ver ele vou ter uma conversa oio nos oios e dar um soco na boca dele…
– Nossa, mas o que aconteceu? Vocês brigaram?
– De repente Dr.. Ele sumiu e não quis mais nem saber. Sangue do meu sangue e não está nem aí.
Tento entender melhor a situação. O filho parece que simplesmente sumiu.
– Porque o Sr não liga para ele? Assim numa boa, sem rancor? Mostre que você sente falta dele, da família.
– Tá bom, vou ver.

Disse ele ressabiado.
Oferece a mão como se fossemos tirar uma queda de braço, o cotovelo apoiado na mesa. Aperta minha mão com toda a força. Olha bem nos meus olhos e pende a cabeça um pouco na diagonal.
– O Dr. é muito humilde. Porreta! Vou voltar aqui.
– Precisando é só falar.

Senti que ele tinha mais algo a dizer. Algo oculto… será culpa, rusga? Bom acabou ficando para o próximo encontro.

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