Acolhimento

por Antônio Augusto Dall’Agnol Modesto

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A enfermeira nos conduziu à sala de acolhimento para mostrar o programa de prontuário eletrônico; atrás iam eu e alguns estudantes do segundo ano de medicina. Ao entrar na sala, me deparei com um casal sentado diante da mesa, que a enfermeira logo ocupou. Deviam ter cerca de 20 anos e pareciam esperar alguém. Ele, cabelos raspados dos lados e curtos em cima, abaixados com gel; ela, longos cabelos negros e olhos grandes; os dois vestidos como se fossem tocar a vida na sequência.

Enquanto a enfermeira nos mostrava como consultar os prontuários no sistema, uma técnica de enfermagem entrou na sala. Trazia quatro ampolas, e eu imaginava o que eram: penicilina benzatina para sífilis. Cada ampola estava destinada a uma nádega do casal.

A enfermeira seguia explicando as potências e limites do sistema e respondendo a perguntas cirúrgicas como se era possível listar os pacientes atendidos por diagnóstico ou como a equipe lidava com a continuidade entre os prontuários físico[i] e virtual[ii] de uma pessoa, enquanto a técnica preparava as doses de antibiótico. Eu ouvia os jatinhos da água destilada batendo no pó dentro das ampolas[iii] e me perguntava como tinham tido o diagnóstico, se os dois tinham sorologias positivas ou foi um tratamento “paciente + parceiro” (ou “paciente + parceira”), como eles tinham conversado sobre isso e quanta atribulação o diagnóstico traria ao casal.

“Vem”, diz a técnica ao rapaz, que se levanta e vai para trás do biombo – uma armação de metal sobre rodinhas na qual se amarram panos como anteparo. O rapaz era mais alto que a peça. Uma sala aberta com sete pessoas estranhas – profissionais e estudantes da saúde, mas estranhos a eles – não me pareceu um lugar confortável para alguém tomar uma benzetacil na bunda. Além do mais, nossa tarefa ali já estava acabando.

“Oi”, eu digo, “já estamos saindo”. Ela não ouve. “Oi!”. Ela não ouve. “OI, MOÇA”. Ela me olha, o rapaz com a mão na cintura, ela brandindo a seringa. “A gente já tá saindo, ele não precisa tirar a calça agora”

“Não, tá aqui o biombo, ó!” e apontou para o biombo. O jovem, resignado, arriou as calças. Meu queixo também arriou. Os estudantes saíam da sala, a enfermeira logo atrás, e eu tinha vontade de pedir desculpas ao casal.

O que estava em questão era a exposição da genitália, não todas as outras exposições envolvidas; era uma questão moral, não de bem-estar. Como se fosse trocar de roupa antes de entrar no carro, depois da praia: alguém segura uma toalha na altura do seu peito, você olha para um lado, olha para o outro, tira a sunga e rapidamente coloca a bermuda.

Fiquei pensando na variedade de coisas que ninguém faria em público, atrás de um biombo.

Ele já tomava a segunda injeção. A vez dela chegaria logo. “Tomei a liberdade de ver o remédio que vocês estão tomando, e essa injeção pode doer um pouco depois”, eu disse a ela, de saída. “Pode tomar uma dipirona, se tiver com dor”.

“Dói na hora ou depois?”

“Às vezes nem tanto na hora, mas depois muita gente fica com dor no local. Pode tomar dipirona ou qualquer analgésico que você esteja acostumada”.

O nome na porta dizia “acolhimento”.

24 de agosto de 2017

 

[i] O prontuário tradicional: um punhado de folhas de papel grampeadas, guardadas em um envelope.

[ii] O prontuário eletrônico, no computador.

[iii] O remédio vem em uma ampola com um pozinho. O profissional mistura algum diluente (como água destilada) para então fazer a injeção.

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