Das dores

por Antônio Rialtoam*

Maria, 50 anos, diarista. Me chega ao ambulatório, na primeira consulta, referindo forte dor lombar. Faço todas aquelas perguntas e exames que a semiologia orienta. Sinal de Giordano positivo na lombar esquerda. Ela afirma que é uma dor muito parecida com a que sentia quando teve cálculo no rim direito. Através do método clínico centrado na pessoa, vou conhecendo Maria e como essa dor afeta sua rotina. Os possíveis diagnósticos foram se desenhando à nossa frente enquanto eu a convidava a manejar seus próprios problemas a fim de buscar a melhor terapêutica. Não referiu mais nada, estava tudo bem em casa. Foram prescritos anti-inflamatório e analgésico, solicitados exame de imagem, e o seu retorno para acompanhamento.

Na segunda consulta, Maria tratou de outra dor. Criou seus quatro filhos com muito suor e lágrima. Proporcionou a cada um, alternadamente, estudar por dois anos em escola particular: era o único meio. Em meio à tristeza aparente, abriu um sorriso orgulhoso quando disse que todos os filhos tiveram lápis da Faber Castell. “Lápis de rico, doutor!” – salientou Maria. Há dois anos, perdeu seu único filho homem. Estava envolvido com drogas, ela sabia. Esteve preso por um ano. Nesse período, ela pagava setecentos reais mensais ao crime organizado para protegerem seu filho. Teve que vender a casa em que morava para custear tanta despesa. Maria emagreceu, trabalhava feito doida. Admite que muito dela morreu com a partida do filho.

Hoje, trabalha diuturnamente para esquecer um pouco essa dor que a sufoca quando a encontra parada e sozinha. Nessa hora, me lembrei de Cora Coralina e pensei que não há outro remédio senão o colo que acolhe, o braço que envolve, a palavra que conforta, o silêncio que respeita, a lágrima que corre, o olhar que acaricia e o amor que promove. Ajudá-la a buscar novos motivos que reacendam a chama de vida quase apagada em seu peito talvez seja a melhor forma de promover o cuidado que ela precisa.

– Posso continuar com seu zap, doutor?

– Mas é claro, Maria! Me chame quando precisar.

– Eba! Ganhei um amigo.

 

* Antônio é estudante do terceiro ano de medicina, membro-fundador da Liga Acadêmica de Medicina de Família e Comunidade da Paraíba, e se diz futuro MFC. 

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