Sobre não querer ser artista

por Ana Paula Marcolino

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Um rapaz franzino, um tanto careca. Aparentava uns 25 anos. Carregava uma papelada, que o deixava encurvado. “Parecem um saco de cimento!” – pensei.

– Dra, não sei por onde começar – as pausas na fala eram grandes, parece um idoso tentando lembrar frases e datas! – a senhora me explica esses exames aqui?

Joga a papelada na mesa, desconsertado, sorriso amarelo. Parece palhaço de circo antigo, tentando ser muito, muito atrapalhado!

– Calma, calma… conta tua história pra eu poder olhar melhor teus exames?

– Então.. ehr… eu fiz o teste de HIV, sabe? Ia doar sangue na universidade… Deu positivo. Há um ano isso. Mas nunca liguei muito. Esses testes são tão loucos, sei lá.. achei que era engano. Nem liguei pra isso. Mas há dois meses, dra… silêncio de novo.

Minha cabeça a mil. Espere! Ele fez o teste de HIV, repetiu, como tem de ser, e ainda assim não acreditou…. com minha bela e boa dose de idiotice, eu julguei a pessoa que eu estava atendendo… “parece talk show”.

Interrompendo minha canalhice, vem o choro ele incontrolável: Dra, eu vou morrer! O médico lá do hospital falou que eu vou morrer rápido! Por favor, me explica o que é CD4, me explica carga viral… eu não entendi nada nada! – Nada parecido com drama. Vida real… realidade na minha cara, esbofeteando.

Estava na minha frente um moço de 18 anos, que tinha acabado de entrar na faculdade de artes cênicas. Ele tinha uma carga viral muito grande e um CD4 de 200. Seu cabelo havia caído muito. Tinha diarreia há quase três meses. Sentia vergonha de seu corpo, pois era muito bonito e atraente antes. Andava encurvado porque as dores no corpo eram surreais. Queria morrer. Tinha vergonha de sair na rua. Expliquei sobre os parâmetros do exame sobre os quais ele havia questionado. Desenhei, conversei sobre os sintomas, ofereci apoio. Minha idiotice foi esvaecendo (ainda bem!). Falei sobre o tratamento da AIDS. Sobre o que estaria por vir.

Ele demonstrava então mais tranquilidade. Parecia final de cena. Mas eis que veio:

– Dra, a senhora não tem idéia de como é ter uma doença crônica e avassaladora.

– Eu sei sim, querido…

Escapuliu! Eu não quero ser artista.

 

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