De 8 a 80

Resultado de imagem para linha reta eletrocardiograma

por Luís Vilela

Dia de plantão noturno em pronto socorro, já esperamos aquele inferno de sempre que a gente se habitua. Para minha surpresa estava tranquilo, apenas uma hora e meia de espera para o baixo risco (ficha verde). Tinha muitos pacientes internados, mas com aquela equipe, estava tudo dominado.

Primeiro paciente: senhor João 58 anos, com queixa de lombalgia (dor nas costas) mecânica. Conversa vai e vem, e ele me pergunta:

– O Sr. me parece familiar. Por acaso não estava aqui há 3 anos?
– Sim. Eu não lembro, é muito paciente que a gente atende…
– Como é seu nome?
– Luís.
– Então é o Sr. mesmo que salvou minha vida e eu nunca agradeci. Era de madrugada, eu estava com dor no peito, fui direto para Emergência você chegou, olhou o eletro, e falou “tá com um infarto dos brutos”. Aí veio a ambulância e me levou para o hospital. Depois do cateterismo e ponte de safena, estou melhor. O cirurgião que me operou disse que só estou vivo porque fiz tudo o que precisava muito rapidamente.
– Fico feliz Sr. João. Muito mesmo. Com esse seu histórico, é importante saber que alguns medicamentos aumentam o risco cardiovascular, entre eles o Ibuprofeno e o diclofenaco. Vou prescrever outras opções.
(https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2017/03/28/ibuprofeno-e-diclofenaco-aumentam-chances-de-infarto-diz-pesquisa.htm)

Tudo seguia bem, e por volta das 22:00 fui jantar. Quando estava passando pela hidratação, fui abordado por uma mãe desesperada em prantos. “Moço salva a minha filha!” e apontou para sala de Emergência, enquanto rezava.

Quando cheguei, vi uma menina de 20 e poucos anos no que a gente chama de pré- parada: inconsciente, pele fria, já monitorada, presenciamos a linha reta no monitor, e iniciamos a massagem cardíaca prontamente.

O colega que atendia o caso desde o inicio conduziu o protocolo da parada. Realizo a intubação orotraqueal. Em pouco tempo, todos os plantonistas estavam ali para ajudar. Uma amiga cardiologista foi conversar com a família para saber o histórico e tentar nos ajudar a saber a causa da parada cardiovascular. Ela estava midriática (com pupilas dilatadas) e teve incontinência urinária e fecal. Será uma causa central (AVE/derrame).

Me ofereci para substituir o enfermeiro na massagem cardíaca. E no final do meu ciclo, ela voltou: pulso presente, forte. Ritmo no monitor flutter atrial e bloqueio de ramo direito (BRD), chega a 100 de frequência cardíaca, pressão inaudível. Nega uso de drogas, exceto anticoncepcional oral, tinha queixa de dores nas pernas e ansiedade.

Linha reta novamente. Reinicia-se a massagem. Todos pensamos em tromboembolismo pulmonar (TEP). As panturrilhas não estavam empastadas. A suposição era que um trombo nas pernas tinha se deslocado até o pulmão, o que levou a hipoxemia (oxigênio baixo no sangue), dor no peito e a parada, o que seria compatível com uma sobrecarga atrial pelo TEP e com o ritmo de flutter atrial/BRD. Ela voltou novamente. Pulso presente.

O telefone toca: novas urgências chegando, e o povo já reclamava da demora no atendimento. Fui atender os casos. Quatro fichas amarelas (prioridade moderada). Atendi todas rapidamente. A gente fica adrenalizado.

Depois de um tempo, atendo a demanda da porta, aparecem meus colegas de trabalho. Todos cabisbaixos. Sentimento de tristeza. Escuto no consultório ao lado o choro da mãe que há pouco rezava, e de seus familiares.
Nessa altura já perdera a fome, mas tinha que comer alguma coisa porque a noite ia ser longa.

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