E tem CID pra isso?

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por Lia Shimamura

Sexta feira é dia de VD. Fomos eu, a residente e a ACS. Bom, só de andar por tantas vielas e escadarias, casas empilhadas, portas escondidas, fiação exposta, crianças correndo, esgoto a céu aberto, a reflexão é inevitável. Que realidade é essa do nosso lado e tão diferente de nós? Eu só conhecia a Rocinha olhando, pela estrada da Gávea, sua muitas luzes e casas sobrepostas. Aquele mundão que faz a gente dobrar o pescoço para conseguir enxergar tudo. Só conhecia, por trás do vidro do carro, no ar condicionado, com as janelas fechadas e som ligado. Na minha visão, ela era iluminada, grande e imóvel. Hoje, quando eu subia, sentia que ali escorre vida. E muita. De todos os tipos. E de um lado uma porta. De outro um mercado. De outro o menino do tráfico que olha. De outro os idosos que pararam para descansar de tantos degraus. E em meio a tantas vidas, fomos atrás de uma. Dona Maria. Ela mora do lado do mercadinho, numa casa verde. Uma porta que dá para sala. Um sofá, uma mesa e uma tv. Ao lado do sofá, um corredor que se estende até o ultimo cômodo. Talvez sejam 3 ou 4 cômodos e um banheiro cheio de baldes com água amarelada. Talvez seja a reserva dela desde que a agua acabou. Bom, mas não foi a casa que fomos ver. Foi a senhorinha de idade, de cabelos brancos e meio ralos, soltos, com 1,60 de altura, cega dos dois olhos, diabética, mora sozinha, não tem filhos. Fomos entregar seus exames de sangue e ver se estava tudo bem. Não está. Ela senta e começa a contar sobre o sobrinho que cuidava dela, mas teve AVC e se mudou para Queimados, sobre seus olhos que já não prestam mais e só enxergam a claridade, sobre como ela se escora nas paredes para andar e já caiu muitas vezes. E chora ao lembrar de sua solidão. Dona Maria chora quando perguntamos como ela toma os remédios, como vive sozinha e como está. Ela se confunde com os remédios, não termina uma frase sem demonstrar falta de ar e apresenta uma glicemia capilar no céu. Enquanto a via chorar, segurei em sua mão e falei que tudo ficaria bem, afinal, estávamos lá pra cuidar dela. Mas a verdade, é que eu não sei bem se tudo vai ficar bem, porque enquanto pensava que eu podia ausculta-la, calcular sua frequência, fazer minha melhor semiologia, nada adiantaria. Podia ser uma insuficiência cardíaca, uma pneumonia, uma cetoacidose. Podia ser só tristeza. Mas o que eu achava mesmo era que o problema dela não tinha CID. E a solução, não estava nos remédios. Ela precisava regularizar a glicemia, melhorar a dispneia, descobrir sua causa e iniciar algum tratamento. Ela precisava de alguém que mostrasse os remédios, ajudasse a andar, a cuidar da casa, do dinheiro e das compras. Ela precisava morar num lugar mais baixo, sem escadas, sem aglomerações e com água. Ela precisava de carinho. E eu, me senti impotente e me perguntava, “gente, qual o CID dela! Como a gente vai encaixar ela num problema só? Como que a gente resolve isso só chamando o SAMU? A assistente social pode levá-la para uma casa de idoso? O que será que ela pode fazer? O que será que nós podemos fazer? O que será que eu posso fazer?” E em meio a um bilhão de pensamentos, a ACS apareceu com o irmão de dona Maria. Ele morava com a esposa em cima da casa da velha senhorinha. Era ele quem cuidava das compras e do dinheiro, mas disse que o resto todo ela fazia sozinha. Perguntamos se dava para levá-la a clínica. Pediu nos uma hora para estar lá. Saímos e ela levantou, segurando as paredes, procurando seu quarto para trocar de roupa.

Descemos para começar a arrumar a papelada para uma vaga zero. Ficou decidido chamar uma ambulância, para leva-la a uma Emergência para investigar e arredondar os problemas médicos de dona Maria. Ela precisa de exames com resultados imediatos e a CSF não dispõe desse recurso. A assistente social será acionada num segundo momento. Eu percebi que, apesar de me sentir impotente, o que tava acontecido ali era fruto de uma sistema público de saúde funcionando a pleno vapor! De uma VD a uma emergência para resolver as prioridades do momento, sem ignorar que, num segundo momento, ela vai precisar de uma outra profissional para suas questões sociais. Que mesmo que não sejam solucionadas, mas que sejam pelo menos, consideradas.

Bom, tudo foi encaminhado e no meio dessa história toda, vou te contar o que eu guardo pra mim com carinho: eu passei pela sala de espera e lá estava Dona Maria. Com cabelo arrumado e vestido até o joelho, de pano grosso, branco e todo bordado champagne. Desses mesmo, que as senhorinhas usam para ir em casamentos. Ela, com 54 incursões respiratórias por minuto, colocou seu melhor vestido para ir ao médico. E além de dizer para todo mundo o quanto eu achei ela fofíssima, eu senti gratidão (e um pouco menos de impotência). Por estar vivendo e vendo isso, a medicina sendo essencialmente medicina. Sendo cuidado. Sendo humana.

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3 comentários sobre “E tem CID pra isso?

  1. Lindo relato! Me fez reviver cada dia dos 3 anos que vivi nesse lugar (digo vivi porque estava lá diariamente como residente e, principalmente, porque me sentia parte dessa comunidade).

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  2. Liaaaaaaa, lindoooooo, fiquei emocionada em
    Ler seu relato. Este é na nossa grande maioria o cotidiano de quem trabalha na ESF, muitas das vezes nos sentimos impotentes, mas ainda temos garras p lutar e tentar dar um pouco de dignidade aos que muitas das vezes estão esquecidos. Beijos sua medica linda.

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  3. Parabéns pela sensibilidade, pelo profissionalismo e por não perder o olhar e a empatia diante do sofrimento humano… Obrigada por compartilhar e nos ensinar com tamanha dedicação e comprometimento com sua profissão.

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