Encaixe

atrasado

por Rodrigo Lima

O senso comum sugere que consultas “de encaixe” são aquelas onde o motivo é simples e a consulta em si bem rápida. Quando isso acontece costumamos ficar bem felizes, porque muitos de nós costumam estar atrasados, sempre com muita gente esperando lá na recepção. Já ouvi que “o atrasado é o ladrão do tempo alheio”, e também que “os médicos de família que se atrasam mais costumam ser os que estão mais disponíveis para as pessoas”. A primeira é radical demais, embora não deixe de ser verdadeira. A segunda parece esquisita, mas minha rotina costuma dar muita razão a ela…ou pelo menos quero crer nisso.

Numa dessas consultas “de encaixe” Ricardo entra no consultório com sua mãe, Lara. Ele tem 6 anos, sua mãe parece estar ao redor dos 30. A queixa: febre que surgiu há 4 dias e que ontem desapareceu, dando lugar a manchas vermelhas por todo o corpo, e nenhuma outra queixa relacionada. “Oba!”, vibro por dentro, vislumbrando que o “encaixe” era um simples caso de roséola, e que eu conseguiria terminar a consulta em poucos minutos, após algumas orientações. Sigo com a entrevista, e pergunto como foram esses 4 dias. Lara me conta que no segundo dia de febre ela foi correndo com Ricardo ao hospital, porque ele costuma ter amigdalite de vez em quando e os médicos da emergência já disseram que ele não podia ficar com febre alta em casa, que era melhor ir logo ao hospital tomar uma injeção de antibiótico. Nessa hora a gente abre a porta pra outras possibilidades…e é aí que as pessoas encaixam outras demandas no nosso “encaixe”…

“E o que você acha dessa recomendação?”, pergunto a Lara, tentando entender como ela tem se sentido com essa “bomba-relógio” nas mãos. Ela diz que fica muito preocupada, porque fica com medo de acontecer algo mais sério com Ricardo. “E por que você tem esse medo? Já aconteceu algo mais sério com ele?”. Lara baixa o olhar. Passa a mão na cabeça do filho. E fala num tom mais baixo que Ricardo nasceu com baixo peso, ficou alguns dias internado. Na primeira semana de vida descobriu que o menino nasceu com “traço falciforme”, e que havia vários casos de anemia falciforme na família do marido, incluindo um adolescente que sofria bastante com dores articulares e já tinha até feito uma cirurgia para retirar o baço. Nessa hora ela conta que Ricardo ocasionalmente tem dores nas pernas, e que ela morre de medo de que ele tenha a doença. Conta também que recentemente Ricardo apresentou um sopro no coração, e que um cardiologista passou vários exames para descobrir a causa do sopro, mesmo sabendo que o menino não tem qualquer queixa: corre, joga bola, faz de tudo. Acabaram de vir de outro estado pra morar aqui e ela está tentando conseguir os exames.  Nesse momento eu resolvo interromper: “Lara, tua cabeça deve estar uma loucura com tanta coisa envolvendo esse menino, né?”

Finalmente o “encaixe” encaixou. Algumas consultas vão seguindo até que num dado momento uma pergunta muda tudo. A consulta era pra Ricardo, mas quem precisava de cuidados mesmo era Lara, que deixa cair uma lágrima, e responde sim à minha pergunta acenando com a cabeça, enquanto pega lenços de papel que eu ofereço (sempre os tenho à mão para as “consultas sagradas”, como me ensinou o mestre Juan). Ela prossegue dizendo que morre de medo de acontecer algo, e parece que quanto mais vai a médicos pior fica, pois cada um a assusta de modo diferente.

Agora chegou a minha vez. Ricardo não vai ter anemia falciforme, o sopro no coração dele provavelmente não significa nada, e não há razão pra procurar a emergência sempre que ele tiver febre. “Traga ele aqui sempre que quiser, a partir de agora cuidaremos de vocês”, digo, numa tentativa de fazer o que a mestra Barbara resumiu: primeiro contato, cuidados ao longo do tempo, abordagem integral, coordenação do cuidado. Lara sorri, um sorriso de alívio. Diz que vai fazer os exames porque só vai ficar tranquila com os resultados. Eu respeito a decisão, e me ofereço para ver os resultados assim que estiverem em mãos. Dirigimos os olhares para Ricardo, que brinca sentado na cadeira entre nós. “Então é isso, grandão…vamos nos ver outras vezes, ok?”. Ele me olha, olha para mãe como que buscando aprovação, e ao vê-la sorrir, sorri também. E de repente tudo se encaixou.

Termina a consulta, olho para o relógio. Eu, o eterno ladrão do tempo alheio, mais atrasado do que já estava. Sorrio. Não vejo problemas no roubo, desde que eu continue me encaixando nessas vidas que me procuram.

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