São Salvador

por Antônio Augusto Dall’Agnol Modesto

 

peanuts ser quando crescer

 

Minha praça favorita fora transformada. Já haviam trocado a iluminação amarela por holofotes brancos, como se houvesse uma cirurgia a fazer ali; mas ontem foi cabal. Não havia ambulantes. As pessoas bebiam como sempre, mas não havia os rapazes e as senhoras com seus isopores, oferecendo cerveja a cinco ou seis reais. Enquanto contornava estupefato meu antigo refúgio, percebi o dobro de viaturas da Guarda Municipal, uma delas de canil – o que diabo um pastor alemão teria vindo cheirar ou morder àquela hora não estava claro pra mim. Camburões davam a volta na praça com frequência.

Sentei-me a esperar o amigo que viria me salvar daquela tristeza, porque o samba que tocavam no coreto não vinha ajudando. Sentado no chafariz seco sob a luz branca, ouvi um rapaz de olhos vermelhos apontar aos amigos uma câmera 360o do outro lado da rua.

Meu amigo chegou.

* * *

Sentados novamente no chafariz, vejo uma criança pedindo dinheiro ao grupinho ao lado. Cabelos enroladinhos, pintados por cima de loiro, corpo de seis anos e olhar de doze, trazendo um edredom por cima dos ombros como se fosse um capote.

Tomava coragem para negar-lhe dinheiro, mas não lhe negaria um olhar e um sorriso. Evito dar esmola a crianças, pelo medo de serem exploradas.

– Tio, me dá um trocado?

Pediu mais a meu amigo que a mim, e teve mais sorte. Enquanto ele palpava as moedas do bolso como se fossem um chocalho mágico, perguntou:

– O que você quer ser quando crescer?

O olhar voltou a ser de uma criança de seis anos.

– Não sei.

Pegou as moedas e continuou pensando.

– Quando eu crescer… – e olhava pra cima, e tocava o queixo com o dedo, e a resposta não vinha, e eu me desesperava pensando que isso que eu sabia responder desde os cinco anos (“cientista!”), pra ele parecia jamais ter sido perguntado. A certa altura, já torcia para que ele dissesse qualquer coisa: mesmo algo ilícito me daria algum alívio. Queria ouvir qualquer coisa que me desenganasse de que aquela criança não sabia se ia crescer.

– Gostou da pergunta, hein? – eu disse.

– Eu quero trabalhar no conselho tutelar.

Voltou a ter o olhar de doze anos, mas seu rosto era todo orgulho. Mais do que isso: gratidão. Fora salvo alguma vez, a escolha e os olhos diziam. E não interessavam agora as histórias ruins e que ouvira, só as boas.

– Bonito – eu disse, e o menino concordou discretamente. – Difícil, mas bonito.

Ajeitou seu capote e despediu-se com um sorriso.

* * *

– Ando chorando mais – disse depois meu amigo, como para me consolar.

Um comentário sobre “São Salvador

  1. Que bonito e emocionante Antonio. Duro, mas bonito. Emocionante pq nos faz mergulhar no fosso onde estamos, mentira, onde está esse menino de seis anos com olhar de doze, q muito possivelmente (e desgraçadamente) não conseguirá chegar lá.

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