Silêncio

por Carolina Reigada

Resultado de imagem para silencio

Me considero uma pessoa de palavra.

Meu pai me ensinou que nossos maiores bens são a honestidade e a retidão de caráter. E o movimento escoteiro, também. Sempre Alerta.

Poucas vezes não cumpri o que prometi às outras pessoas.

(Promessas feitas a mim mesma, espertamente, não entram nesse meu forte jugo moral.)

E, quando não cumpri, a culpa me perseguiu por um tempo. Esse causo é sobre mais uma quebra de contrato pra minha conta.

Fui fazer uma visita domiciliar em uma microárea recentemente adicionada à minha equipe. Faz um mês, mais ou menos. Foi na casa de uma celebridade do bairro.

“O povo quer saber dele, porque ele sempre foi muito ativo na comunidade, ajudava todo mundo, movimentava as coisas!”, me contou a agente de saúde.

Acho que deve ser a melhor forma de celebridade, essa local: mais gratificação, menos exposição. Mas, eu não teria como saber por experiência. Pensei em perguntar à pessoa que eu ia conhecer.

E o conheci, há duas semanas. Já na cama, respirando oxigênio do balão…o nosso O2, compartilhado, já não era suficiente para ele. Respirava com dificuldade, as costelas à mostra, evidente o esforço.

Era um homem, solteiro, cuidado por mulheres da família: irmã, sobrinhas.

A agente de saúde não conseguia entrar na casa antes, a família fez mistério do que acontecia. Os vizinhos perguntavam: “cadê ele? Sentimos falta!” E a resposta era: Silêncio! Não atende a campainha!

Entramos na casa, recebidas pelas mulheres.

Elas me chamaram para longe dos ouvidos dele: é câncer.

Câncer?

Câncer.

Mas ele sabe?

Silêncio.

Entendo.

Rápida conferência familiar no cômodo preferido de todas as casas: a cozinha.

Senta a irmã e a sobrinha, olhando para as próprias mãos, e a agente de saúde.

As mulheres espalham os papéis na mesa: resultado de exame, marcação de consulta.

“Câncer de pulmão. Doutora disse que não vai curar. Mas a gente não contou pra ele.”

(Parênteses rápido: “começo” é igual como verbo ou substantivo, já perceberam? “O começo” e “eu começo”. O fim que muda.) Continuando a estória.

Eu tento: “mas gente…geralmente, nesses casos, o paciente sabe que tem alguma coisa errada com ele. Ele percebe…os exames, as consultas, os olhares de preocupação, os cuidados (o balão de oxigênio, eu pensei, mas não falei). Ele provavelmente sabe que tem alguma coisa muito errada….talvez quer falar sobre isso…mas como ninguém fala, ele acha que não é bom falar. É uma conspiração do silêncio.”

“É, ele ficou muito tempo internado, e os professores da faculdade levavam os alunos e falavam essas coisas perto dele…falavam de “massa”, de “tumor”, mas ninguém conversou com ele sobre isso. Nem a gente.”

“Mas talvez ele precisa saber. Ele pode querer falar com alguém, fazer alguns acertos, deixar coisas organizadas, se despedir. E, se ele está piorando nos últimos dias, como vocês falaram, talvez ele não tenha muito tempo.”

Cuidadoras se olharam. Falaram: “é, a gente não tinha pensado sobre isso.”

 “Já perguntaram se ele quer morrer em casa ou no hospital? Como ele quer que sejam as últimas horas?”

Não houve resposta.

“Eu sei que é uma fase extremamente difícil. Mas nem vocês, nem ele precisam estar sozinhos. Esse sofrimento pode ser aliviado, ao invés de silenciado.”

Resposta: Silêncio.

Tentei chegar por outro caminho, um caminho mais legítimo para eu andar, o da biomedicina: “a pneumologista escreveu algum laudo, tem alguma programação?”

“Tem, ele tem consulta semana que vem, na segunda-feira, pra mostrar o exame.”

 “Entendi.”

“Mas o médico que fez o exame já falou que não tem muito a fazer. Só estamos esperando a biópsia e o que a pneumologista vai dizer.”

 “Tudo bem. Posso propor uma ideia? Eu escrevo uma cartinha pra pneumologista dizendo que podemos ajudar a cuidar dele nessa fase, vocês mostram pra ela na semana que vem e pedem pra ela me responder, pra eu saber melhor do que está acontecendo, que acham?”

“Pode ser.”

 “Combinado.”

Escrevi a cartinha, oferecendo a equipe para cuidar da celebridade do bairro. Imaginei que celebridades do bairro gostariam de ser cuidadas no bairro. Conversei novamente com as cuidadoras sobre esse momento tão da vida, que é a morte. E fui me despedir dele.

Disse que voltaria para ve-lo na próxima semana, ele concordou, bem fraquinho, com a cabeça.

Mas eu não voltei pra vê-lo. Ele foi à consulta na segunda-feira e não saiu do hospital. Ele faleceu na quarta-feira, o enterro foi na quinta e o povo só soube na sexta.

Ao final, predominou o silêncio.

Curiosas são as nossas escolhas.

Ontem, me deparei com uma frase de Michel de Montaigne: “Meditar previamente sobre a morte é meditar previamente sobre a liberdade. Quem aprendeu a morrer desaprendeu a se subjugar”.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s