Médico da família e com a família

por Lucas Gaspar Ribeiro

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Essa semana, na verdade há 2 dias, recebi a notícia do primeiro falecimento na minha  área/equipe desde que estou na unidade, em abril de 2016. A morte é algo que sempre convivemos, esperamos, e alguns pacientes, por favor, não me levem a mal, mas desejamos (era o caso dele), mas nunca estamos preparados. Acho que a primeira é mais impactante – a primeira da vida (primeira morte da vida, que ideia estranha), a primeira da família, a primeira da faculdade, da residência, do pós-residência, do plantão, e agora, a primeira morte desde quando entrei na equipe…

Vamos ao começo…

Ele era um senhor de 90 anos, com Doença de Alzheimer já avançada (falava pouco, precisava de ajuda para tudo, usava fraldas, etc..), tinha insuficiência cardíaca (coração muito fraquinho já), morava num “puxadinho” bem feito nos fundos da casa do filho e da nora, lá tinha um quarto e um banheiro (a lavanderia ficava entre esses dois cômodos). Ele era um paciente que eu acompanhava em casa por suas debilidades desde o começo. Já tinha tratado uma infecção de urina 2 vezes, já tinha tirado as águas do pulmão com remédio, já tinha internado ele porque “só remédio por boca estava fraco para os inchaços”.

Última visita a ele, acho que não vou me esquecer tão cedo, ou tão tarde…

Ele estava na garagem, sentadinho, olhando para a rua, sozinho… ele e seu andador. Sua nora estava para dentro.

Ele sempre foi um paciente que mais ouvia que falava, mas esse dia ele conversou mais, contou como estava, que estava bem, que gostava de ficar ali na frente, para ver o movimento.

Seus bisnetos estavam na garagem desenhando em uma pequena lousa de giz.

Uma imagem gratificante.. uma paz..

Contudo, há 1 semana, fiquei sabendo que ele fora internado com um derrame (ficou 4 dias internado e recebeu alta). Voltou para casa sem se comunicar, sem sair da cama, sem comer, exceto por uma sonda (um cano do nariz até o estômago). Pensei logo – putza, pra quê isso?? Um senhor já com tantas dificuldades, que mora com o filho também idoso (mais de 70 anos), que também tem problema do coração, a nora com diversos outros problemas. Quanto isso vai sobrecarregar a casa. Assim que eu tiver um tempinho vou lá.

Como prometido, 6 dias depois da alta (quando eu tive o tempinho), fui lá. Logo ao entrar percebi os olhos cansados da nora, da neta e de uma pessoa nova naquele ambiente, que descobri ser o irmão mais velho. No começo, não tinha me “tocado” que ele tinha falecido, achei que aquele cansaço era porque ele estava dando muito trabalho.

De repente a nora solta que estava muito difícil de cuidar dele, porque a comida estava difícil de fazer, travava muito. Percebi que o verbo estava no passado. Perguntei “o que aconteceu??”. Doutor, você não está sabendo que ele faleceu? Não, não estou não (cara de tacho, de bocó, broxei !!). Fui preparado para avaliar um acamado, e descobri isso.

-Foi hoje de manhã o enterro, ele faleceu ontem.

(não vou entrar nos detalhes, literalmente, mórbidos da história para não cansar você, leitor, que busca muitas vezes um carinho, um sorriso, um abraço nas nossas linhas..)

Nossa, acho que ainda não consegui desenvolver isso..desenvolver a ideia que ele morreu, o primeiro paciente que eu  “perdi” no novo emprego. Escrevendo isso, relembrando sua história, relembrando os momentos, as vezes que vi toda sua família, que conversamos sobre ele, que estranho.. sensação de vazio,de falta, de e agora?

Acho que não somos apenas médicos de família e comunidade, mas sim médicos da família, pertencentes aquele lar, aquela casa, onde nós acolhemos e somos acolhidos, que celebramos as conquistas, mas também, sofremos com as perdas.. vivenciamos o luto em nossas costas, nossos consultórios, nosso dia a dia..

Ainda bem que escolhemos esse caminho.

 

Um comentário sobre “Médico da família e com a família

  1. Lindo demais, Carol. Éisso que fazemos. É disso que vivemos. Perfis. Foi isso que escolhemos e que nos faz diferenciados. Simples assim. Sem meio-termo. Sem tergiversar. Ou é ou não é. Na alegria, na tristeza, na saúde, na doença…e também na MORTE.

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