Sobre vínculo, confiança, respeito e verdade

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por Bianca Niemezewski Silveira

Plantão na sutura do HPS:

Estava esperando chegarem pacientes. Ouço a técnica de enfermagem chamar um paciente. Vejo ela fechando as cortinas do leito e fico curiosa, vou lá e vejo uma paciente deitada com a barriga para baixo, a saia levantada e um corte a ser suturado na nádega.

Volto à tela dos pacientes para verificar quem ela era e qual era a história e encontro dois pacientes:

Marlene* de 89 anos e Wellington* de 28 anos.

Tenho um estranhamento inicial e nesse meio tempo chega minha colega e pergunta: “como assim? Tem alguma coisa errada!” Em seguida, eu já raciocino e lhe digo: pode ser uma pessoa trans 🙂

Minha colega se dirige ao leito e já inicia a higienização, já que eu tinha feito a sutura do paciente anterior e fazemos revezamento.

Abro o prontuário do paciente chamado Wellington e a história refere ferimento em nádega. Ao mesmo tempo, escuto a técnica contando para outra: “ah, ele disse que as crianças estavam descascando uma fruta, deixaram uma faca em cima do sofá e ele não viu e sentou em cima.”

Resolvo me dirigir ao leito. Minha colega está anestesiando a paciente de saia.

Me aproximo. Vejo sua saia, sua blusa, seu sutiã, sua bolsa e seu cabelo pintado. Cumprimento-lhe, me apresento e lhe pergunto: “como tu gosta de ser chamada?” “De Gabi!!!” Responde ela com um sorriso de orelha a orelha.

Fico feliz com o sorriso e a receptividade dela comigo e me sinto à vontade para puxar assunto.

“Poxa, que coisa, ali no sistema está o outro nome! Sabia que tu pode oficializar teu nome social?”

“Sabia e eu fiz! Mas eu perdi a minha carteira com o nome social e daí eles não aceitam colocar ele e têm que colocar o outro…”

“Puuutz, que ruim, sinto muito por ti! E já pensou em pegar uma segunda via?”

“Sim, mas é complicado…”

“Eu imagino… Mas e onde tu mora?”

“Ah, moro na Restinga, mas vivo mais pelo centro…”

“Ah, lá na Restinga tem posto de saúde, né?”

“Sim, tem sim…”

“Mas quando tu diz que vive mais pelo centro, tu quer dizer que está em situação de rua?”

“Sim!”

“Hmmm… mas se tu fica mais pelo centro, tu por acaso é atendida pelo consultório na rua?”

“Sim!!! Lá do Santa Marta!”

“Aaah, legal!!! Eles são uma equipe bem boa, né?”

“Aham!!!”

“Acompanha com eles?”

“Sim, sim”

“Legal! Mas então… ééé… o que que tu te considera?”

“Como assim?”

“Ai, desculpa se eu estou sendo indelicada, mas é que eu gosto muito do assunto LGBT! Não precisa falar nada!”

“Não, não, falar é melhor! Eu me considero trans!”

“Aaaah, legal!!! E tu tá bem com a tua imagem corporal?”

“Como assim?”

“Tu te sente bem com tua genitália?”

“Sim!”

“Já operou?”

“Não!”

“Gostaria?”

“Não…”

“Ah bom, que bom! E hormônios? Já teve vontade de tomar?”

“Já tomei!!! Tomei por conta uma época… mas minha médica… pq lá no Santa Marta eu acompanho para cuidar de outra doença, aquela sabe?”

“Aquela que trata com ‘três em um’?”

“Essa mesma… Ela me pediu para eu nunca mais fazer isso! Pq agora estou seguindo o tratamento! Faz três meses que estou tomando os remédios direitinho!”

“Poxa, que legal, parabéns!!! Maaas, tu comentou que tá em situação de rua, né? Como que faz para tomar o medicamento certinho?”

“Ah, eu pego no posto, deixo na minha bolsa e levo sempre comigo!”

“Entendi! Que legal, parabéns mesmo!”

“É, é que ano passado eu perdi minha irmã por causa dessa mesma doença… daí eu decidi que queria tratar dessa vez. Faz dois anos que eu descobri que tinha!”

“Puxa, sinto muito pela tua perda. Mas fico feliz que tu tenha decidido seguir o tratamento agora. Mas eu imagino que seja muito difícil!”

“É sim… para mim, a ficha só caiu quando peguei os remédios na mão e tive que tomar… muito ruim, ainda tem muito preconceito na sociedade, sabe?”

“Sei sim…”

“Pois é, mas daí agora tá tudo certo!”

“Com certeza… mas e tu costuma usar preservativos nas tuas relações? Tu e a tua ou o teu parceiro no caso, né?”

“Ah sim, eu sei que a gente pode pegar outras doenças tbm, já tive sífilis e tratei, mas daí peguei de novo…”

“Sim, sim, mas sífilis a gente pode tratar. Se tu pegou de novo, pode tratar de novo. O problema são outras doenças, como hepatites por exemplo.”

“Sim, por isso sempre uso!”

“Que ótimo, parabéns mesmo! Mas e como que é a aceitação pelos teus pais? Eles te apoiam?”

“Siiiim! Claro, no início não né, mas hoje a minha mãe vive pedindo para eu voltar para casa…”

“Sério?! Que demais!!! Isso é incrível!!! E por que tu não volta?”

“Ah, pq é difícil… ainda tem muito preconceito né… não consigo emprego e me sinto muito mal de ficar morando com ela sem poder ajudar. Não gosto de ver ela trabalhando e eu lá sem poder ajudar…”

“Hmm.. entendo, complicado né? Eu imagino que seja muito difícil, mas pensa com carinho nesse pedido dela… Na rua tu acaba ficando tão exposta ao ódio de tantas pessoas… Imagino que tu já deve ter passado por situações tão delicadas e deve ter mil histórias para contar.”

“Ah, com certeza, é muito difícil ficar por aí… eu sou o combo completo: mulher, preta e pobre! Não é fácil!”

“Pois é, eu imagino… Mas enfim, pensa nisso, cuida de ti, te protege como for possível se assim tu achar melhor. Por que por mais que tu não possa trabalhar fora, pensa assim: tua mãe tá tendo que trabalhar duas vezes: fora para ganhar dinheiro e dentro de casa para manter tudo em dia, não é?”

“Sim…”

“Então se tu for para casa, mesmo que não traga dinheiro para casa, se ajudar com as tarefas do dia a dia já vai estar ajudando e muito ela!”

“Sim, é bem isso que ela me diz!!!”

“Então! Pensa com carinho… Quem sabe, né? Hehehe…”

Vejo que minha colega está terminando a sutura e resolvo finalmente fazer a pergunta que eu geralmente faria no início da ‘anamnese’ do HPS:

“Mas então, o que que aconteceu contigo para ficar com esse corte aí mesmo?”

“Ah, um ex-namorado… ele não aceita que eu não quero mais… daí eu tava lá na minha e do nada quando eu vi já tava com minha bunda sangrando…”

“Puuutz, que ruim!!! Sinto muito! Mas agora minha colega já está terminando e vai ficar bem!”

“Ai, sim, muito obrigada vocês duas! Muito queridas! Porque eu agora tô desse jeito: com dois furos na bunda! Hahahaha…”

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