Caso OFS

por Thaís Leite

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O.F.S, 79 anos.

Há 1 ano acompanha comigo. Iniciei insulina para o diabetes, otimizei as medicações para dor de sua hérnia discal lombar. Criamos um bom vinculo. O.F.S é um senhor bem apessoado, sempre muito elegante. Voltou a estudar aos 79 anos! Recebera um convite para dar aulas e gostaria de se aprimorar.

Fazia tempo que não o via, estava sumido…após algumas renovações de receita, solicitei que consultasse. Retornou nesse ano, diabetes não estava bem controlado. Aumenta insulina, avalia dieta, retorna semanalmente. E nos vimos outras duas vezes em consulta.

Hoje, em meu primeiro dia após curtas férias, atendo O.F.S. Já era 17h30. Com a pausa para o banheiro e um lanche, chamo-o às 17h45. Logo pensei: “é apenas o ajuste da insulina, será rápido.”

Ele caminha com dificuldade até o consultório. A coluna não estava boa. Mostra-me o controle glicêmico que, de maneira geral, estava ótimo, mas em medidas pontuais, bem descompensado. Pergunto o que comeu nas noites que antecederam aquelas medidas. Diz não se lembrar. Diz que uma vez ficou internado no hospital e que estava sem apetite. Na ocasião, foi-lhe prescrita uma medicação. Trouxe a caixa para eu ver. Era uma medicação que abriu seu apetite. Tive duvidas. Ele estava se queixando de falta de apetite? Olhei a caixa, era mirtazapina. Perguntei se ele sabia das indicações dessa medicação. Ele diz que sempre lê as bulas e que a medicação ajudou muito no apetite. Digo que também é uma medicação anti-depressiva. De imediato, ele responde: é isso o que eu tenho…ando muito deprimido. Olhos enchem de lágrimas, pergunto se aconteceu algo, ele conta que esposa foi embora em dezembro, pego lenço de papel, ele responde que seus olhos lacrimejam muito.

Não havia motivo aparente para a separação, segundo seu relato. Foram 22 anos juntos. Queixa que esposa ainda mora com ele, mas passa muito tempo no celular (dilema moderno) e que às vezes não cozinha para ele (dilema antigo). Diz ter o coração estranho, pois continua pagando tudo para ela. De repente, me vi tendo o privilegio, aos 33 anos, de consultar um senhor de 79, cujos olhos lacrimejam, mas não choram… com coração estranho… mostrando por meio de uma caixinha de medicamento um pouco do que estava acontecendo com ele.

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