O que me faz voltar

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por Gabriela Machado

É fevereiro e faz um calor daqueles na cidade de São Sebastião, de São Jorge e de Ogum. Hoje não dormi bem, pois tive uma discussão daquelas com meu pai o que me fez ir deitar muito tarde. Associado ao fato que é quase carnaval, o que quer dizer que já estamos purpurinados por mil vidas ( é que purpurina não sai muito fácil da onde encosta) e que eu ultrapassei meus limites cantando marchinhas e batendo o pé no chão ao ritmo dos tambores de olokun. Bom, voltando ao meu pai, apesar de ter 31 anos ainda dependo dele para me sustentar. Faz parte da escolha que fiz de fazer medicina como segunda faculdade. Sim, pai, você tem mesmo razão. Sou grata ao fato de você ter ultrapassado suas dificuldades de se expressar e ter falado comigo (meu pai é muito contido). Faço-lhe afagos e peço desculpas também ultrapassando minha dificuldade do toque. Acabei de chegar da minha primeira aula de dança e isso facilitou o caminho do meu coração para minhas mãos e, finalmente, aos cabelos cada vez mais grisalhos do meu amado pai.

Saio de casa atrasada, pego o ônibus pra Rocinha. É dia de visita domiciliar, ou seja, meu dia preferido, e eu não me preocupo tanto com o calor que vou sentir ao subir o morro. Hoje vamos ver o seu Honório. Ele tem 65 anos e foi diagnosticado com câncer de estômago, mas não quer mais se tratar.

A Rocinha é cortada por uma vala de esgoto que corre a céu aberto. Um rio, que não é rio, no Rio. Passamos por ele algumas vezes na subida pra casa do nosso paciente. Algumas paradas no caminho: Alexandre que caiu da laje e está se recuperando. Cria umas galinhas e oferece café. Olha, tem que ficar de olho no Felipe…ele não está tomando o remédio de tuberculose não. Batemos na porta, mas o Felipe não está desde ontem. Ele é travesti e faz programa à noite, além disso ele é o vizinho do Alexandre e cuida das galinhas dele quando ele não está. Na favela tem dessas coisas: está todo mundo muito perto. É um território que favorece os afetos. Afeto no sentido de se afetar com o outro. Tudo se esbarra, se espeta, se cuida, se olha. Vamos lá no Seu Honório. Tem uns cachorros que moram ali na escadaria que é continuação da casa de dois cômodos que vamos visitar. Eles fazem que não vão deixar, mas sob olhares atentos deixam a gente passar sossegados.

Oi, Seu Honório! Tudo bem com o senhor? É a residente falando. Eu sou acadêmica. E paro nesse momento: que casa tão limpinha! Fico até com medo de sujar com meus sapatos. Ele está só. Não vou não. Mas, Seu Honório…Não adianta que não vou. Está irredutível. Depois que minha filha voltou pro Ceará eu fiquei sem vontade. Ah, sim. Mas ela precisou voltar para trabalhar, não é?! E tem sua outra filha. Mas aquela era minha preferida. Essa não sabe cuidar de mim. A Cátia que sabia as coisas que eu gostava e as que eu não gostava. Agora já não importa. Quero só ficar aqui quieto em casa. Vou não. Mas a situação do senhor pode ficar pior. Imagina ter que ficar internado, ir pro CTI, ter um sangramento em casa…tantas coisas. Eu não vou não, doutora. Vou morrer aqui em casa se tiver que morrer. O Alexandre também chega. Vamos lá, eu posso levar o senhor quando precisar. Mas não tem jeito mesmo. É difícil deixar a casa. O que fazer? Tem coisas que a ciência não alcança. A medicina não dá conta da complexidade do ser humano. E tem que dar? E a gente? Faz psicologia para aprender a lidar com essas questões? Palestra de comunicação não violenta, yoga, análise, danças, aula de maracatu…olha o carnaval aí. Tanta coisa essa vida. E será que ele não tem razão? Também quero morrer em casa. E, quem sabe, ganhar muitos beijos e carinhos dos meus bem-quereres. Mas o senhor pode ter uma qualidade de vida…que qualidade de vida, minha filha? É..hoje não está fácil. A gente volta, tá bem? Vocês que sabem, mas eu não vou fazer nada de quimioterapia, nem nada enquanto a Cátia não voltar.

Tô em casa olhando pro céu mudar de cor. Mas não tô vendo. Tô vendo é o chão limpinho daquela casa. Imaginando a Cátia e o Seu Honório juntos e agora ele sozinho. Esse sistema que impõe que uma filha tenha que se afastar do pai para conseguir dinheiro em troca da venda da sua força de trabalho. Que ele tenha que ter saído de perto de sua família e sua terra para conseguir dinheiro. E que agora à esta altura da vida ele esteja só. Tem que saber o que é seu e o que é do outro, Gabi. E o que é que é meu aí? Eu penso no meu pai e nos seus cabelos grisalhos. E na sua dificuldade de desligar o alarme do celular, que quer dizer sua dificuldade com as novidades, que quer dizer que ele está envelhecendo. E penso na minha casa que também tem o chão limpinho por que minha mãe tem mania de limpeza. E penso no meu avô que foi tirado de perto da gente em um dos momentos mais importantes da sua vida: a sua morte.

Ninguém sai impune da vida. Ninguém sai impune da medicina de família. Vale a pena sofrer se é esse o preço do afeto, ou da tomada de consciência do que ele produz em mim. Voltaremos Seu Honório. Voltaremos quantas vezes couberem na sua vida e não importa o que você vai querer fazer dela, estaremos contigo mesmo que não saibamos muitas vezes o que ou como fazer. Mesmo que não saibamos como lidar com sua fuga (?) e seu sofrimento (o seu e o que o sistema te impõe). Mesmo que isso faça a gente sofrer. Estaremos por que esse é o nosso dom, não o dom de cura, mas o de se afetar e continuar presente.

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