Um choque de realidade

por Lucas Gaspar

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Tenho uma paciente, como muitas que acompanham a gente aqui, que tem um vínculo ótimo com a unidade, mas um vínculo péssimo consigo mesma. Porque digo isso. Ela é uma senhora de 50 e poucos anos, mas com carinha e corpinho de 70 anos, diabética, deveria usar insulina pelo menos 3 vezes por dia, em doses bastante altas, mas em 1 ano, eu nunca vi uma dextro (medida de açúcar no sangue) abaixo de 300 em jejum (a meta é 130). Já tentamos internação para corrigir em um “hospital-hotel” da cidade, já tentamos atendimento em nível secundário, nível terciário (para ver o porquê é tão difícil), mas os resultados são sempre os mesmos: a dificuldade de vínculo consigo mesma, não gosta da doença, não gosta de insulina (“Lucas, eu sou resistente à insulina, não tem jeito”). Mas, também, quem iria gostar??? Sempre que penso em abordagens motivacionais, ela tem uma resposta na ponta da língua –  nossa, que luta com ela.

Há umas 3 semanas, a mãe teve diagnóstico de uma massa no pulmão, foi para o hospital, pá-pum, diagnóstico de câncer de pulmão, já metastático.

Veio hoje contando os detalhes…Mãe internou, ficou 1 semana internada, recebeu alta para ver os filhos, ficar um pouco em casa. Amanhã tem uma biópsia de pulmão – e os médicos disseram que ela “pode não suportar a biópsia”.

Frente a isso, foi contar para seus irmãos – descobriu que uma de suas irmãs também está com câncer de pulmão. Desculpem-me o palavreado, mas PUTA MERDA hein…A mãe, a irmã, em uma paciente já com inúmeras dificuldades consigo mesma.  Contudo, o discurso da paciente estava mais voltado para a mãe, não falava muito da irmã, ou quando falava, era sobre como a irmã, agora também com a mesma doença, não estava dando importância para a mãe, negando a doença da mãe.

Tentei consolar, apresentar o luto, como cada um tem seu tempo, reage de uma forma diferente, a irmã estava em negação apenas, não que ela não quisesse o bem da mãe.

Tentei falar sobre as possibilidades da mãe, que ela poderia ficar bem, melhorar.

Ventilação, apoio, auxílio naquele momento crítico – ela vivia em momentos “críticos”, mas esse era claramente mais sério. Reforçando que poderia vir coisas boas dali, o quanto ela precisava SE CUIDAR para cuidar do outro (às vezes a gente esquece que precisa estar bem para cuidar do outro, né??).

Até que, em certa altura, olhei uma anotação e vi a idade da mãe. OITENTA E SEIS ANOS!!!!

Novamente, pela segunda vez me desculpo, puta merda, é uma velhinha já, todos temos que morrer algum dia, será que ela achava que a mãe seria quem, o Highlander??

Mudei o tom da conversa, amparar algo que não tem resolução não dá né, eu sei que ela quer apoio, apoio, apoio, mas ela tem que se apoiar também, se fortalecer,  olho no olho, voz firme:

“Olha, dona Caroxinha, vamos ser sinceros agora, sua mãe tem quase 90 anos, todos nós vamos morrer. Todo mundo vai ter alguma doença que vai levar à morte”.

“O Câncer, sim câncer, ô palavra dura de falar e ouvir né? (sim, falei assim para ela), nada mais é que o envelhecimento do corpo, das células, da parte do corpo. Todos nós vamos ter esse tal desse câncer se vivermos 100 anos, seja de pele, de mama, de próstata, de pulmão, como é o caso da sua mãe que morou a vida toda na roça e já tinha o tal do enfisema.”

“Agora não é o momento de ficar lamentando a morte dela, a morte de alguém que está lá, do seu lado, mas sim de aproveitar enquanto ela está viva, sim ela está VIVA, está bem, não está precisando de oxigênio, não está precisando de remédios. Ela só não pode ficar sozinha por causa da memória, mas de resto, pode tudo.”

“Tem que ficar com ela, tem que aproveitar ela, tem que fazer o que ELA GOSTA. Quanto mais se lamentar, chorar, viver a morte de alguém VIVO, pior vai ser.”

Engraçado como o rosto diz tudo né?? Ela estava com uma cara de velório no começo, só falando coisas ruins. De repente ficou quieta, pálida, muda, séria.

Será que eu falei demais?? Será que a realidade é muito dura? Ichi, fiz merda…Tudo bem, depois de dito, não tem mais volta, mas deixa eu tentar aliviar:

– Sabe, não é legal falar disso, falar dessas coisas, saber que alguém vai morrer, mas todos vamos morrer, e se você não se cuidar rápido, pode ter um pirepaque e ir antes da sua mãe.

Aproveite o momento, aproveite agora e se cuide, se cuide para dar O MELHOR para ela nos próximos tempos que virão.

Ela falou: é verdade Lucas, acho que eu preciso dar o melhor para ela…

Simples assim.

Doeu falar isso para ela, doeu, deve ter doido ouvir isso de mim, muito provavelmente.

Vai ter mudança?? Assim espero, e que venha um causo com dextro de 120 em alguns meses…

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