Uma história de amor

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É, eu sei, as histórias de amor estão batidas, são melosas ou simplesmente idealizadas. Pra que perder tempo com elas?
 
Eu estava na faculdade de medicina e em uma fase particularmente descrente nesse “amor pra toda a vida”. Aproveitei a oportunidade e topei passar alguns meses morando fora de casa, em uma cidadezinha de 30.000 habitantes, chamada Piraí. Lá, faria meu internato em Medicina de Família e Comunidade.
 
Ainda nessa tendência intimista, como se tivesse muito a achar na minha introspecção, optei por me afastar ainda mais: me refugiei em Santanésia, um distrito de Piraí. Uma única equipe de saúde da família era responsável por toda a (minúscula) população, que somava um total de 1300 pessoas.
 
Durante o internato, chamou a atenção o número de idosos no local. Consequentemente, haviam também muitos cuidadores de idosos. A bem dizer, eram 22 cuidadores no total. Resolvi fazer meu trabalho de conclusão de estágio sobre esses cuidadores: quem eram, como faziam para superar as dificuldades diárias. Afinal, cuidar de alguém de forma tão íntima é um trabalho sem fim de semana, um trabalho que exige tanta comunhão e comprometimento que, eu diria, não pode mais ser considerado um trabalho. É uma devoção.
 
E a carga emocional…quando os cuidadores eram da família, era ainda mais confuso. A dor de ver o familiar piorando, apesar dos cuidados. Ou a dor do cuidador que sofre com o mau-humor e maus tratos da pessoa que cuida. E a insegurança de, não tendo nenhuma formação para o cargo, simplesmente estar fazendo tudo errado.
 
Mas, como eu disse, eram 22 cuidadores – desses, 21 eram mulheres. Somente um era homem. Desse, eu nunca esqueci: cuidava de sua esposa. Engraçado, sempre que lembro deles, os imagino vestidos de branco. Acho que faço relação com o compromisso do casamento. Mas, estou me adiantando.
 
Moravam ele e sua esposa, ambos com muitos cabelos brancos na cabeça, denunciando os mais de 70 anos vividos. A casa, aconchegante e arejada, limpa. A encontrei no sofá, com um monte de mau-humor estampado no rosto. Respondeu ao bom dia com palavrões. Ele tentou acalmá-la, recebeu alguns xingamentos bem específicos – acho que ela vinha praticando a arte de ofender há muito tempo!
Chegava a ser engraçado o contraste entre aquela senhora angelical, naquela casa de campo, xingando com tanta desenvoltura.
 
O marido se desculpou: “Ela tem Alzheimer, há muitos anos. Os remédios melhoram as coisas, mas não gosto de deixá-la dopada e dormindo o dia todo, então tem dias que são assim.”.
Eu, estudante, continuei curiosa: “São muitos esses dias?”.
Ele riu, cansado, e disse: “Acho que quase todos!”
Me surpreendi. Imagina ouvir isso todos os dias! Ninguém é de ferro, não! Por isso, veio a minha próxima pergunta: “Tem alguém da família que ajuda o senhor?
Ele me explicou que os filhos moram em outras cidades, têm suas famílias e suas vidas. Visitam e ligam sempre, mas não podem morar com eles.
Eu, preocupada, insisti: “Mas e um cuidador, para dividir a carga? Não deve ser fácil viver assim!”.
 
Ele deve ter visto alguma coisa no meu rosto, porque se levantou e foi sentar ao lado da esposa. A abraçou, e ela deixou. Ficou mais calma e esboçou um sorriso. Foi aí que ele me ensinou:
 
“Ela é minha menina. Foi minha namorada, foi minha noiva, é minha esposa…(respirou fundo)…É o amor da minha vida. Não tem outra pessoa pra cuidar dela, não.”
E sorriram um pro outro, como se nem o mundo, nem o Alzheimer, existissem.
 
Amor é difícil de definir. Mas aquela cena, naquela casa, naquele vilarejo me ensinou de amor, comprometimento, compromisso, de um jeito que Shakespeare nenhum conseguiu.
O amor de um personificado no outro, o outro a personificação do amor do um. Uma soma muito além do que eu entendia.
 
Realmente, não existe nada de mesquinho no amor.
 
Já de volta à clínica, escrevendo o relatório da visita, tive vontade de terminar as anotações no prontuário com aquela célebre frase: “e viveram felizes para sempre”.

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