Valentina Valente

por Luís Antônio Tavares Vilela

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Este é um daqueles causos que poderia ser um livro facilmente, porém, vamos aqui aos melhores momentos:

Valentina, 38 anos, casada 4 vezes, 12 filhos, todos partos normais. Nenhum dos filhos mora com ela, foram retirados pelo Conselho Tutelar. Nossa história começou em 2012, a conheci enquanto fazia um curativo em seu braço direito. Tinha sofrido uma queimadura por água quente já há mais de 1 mês. A enfermeira me chama para dar uma olhada na ferida que teimava em não cicatrizar. Mesmo sendo muito cedo já estava etilizada, era um comportamento corriqueiro, todos os dias vinha para fazer o curativo nesse mesmo estado. Conversamos um bocado e acabei receitando vitaminas, pomadas, e encaminhei para nutricionista para cuidar de sua desnutrição, causa evidente do moroso processo cicatricial. Ainda encaminhei para o CAPs AD* para tratar seu etilismo.
Passado um mês ainda estava lá aquela ferida crônica, as pernas finas, a embriaguez recorrente, seu sorriso maroto e o jeito debochado de ser.
– Dr. o senhor é um partidão! Você não quer casar comigo?
Disse ela rindo de si mesma.
– Eu já sou casado. Minha mulher não vai gostar muito dessa história, não!
Disse eu rindo da situação.
Valentina ficou nesta rotina. Não aceitava tratamento para o etilismo, ao mesmo tempo, tinha bom relacionamento com a equipe e era querida por todos. Passou, dia após dia, a definhar e a desnutrir radicalmente.

Surgiu uma ascite e ela encasquetou que estava grávida. Quando disse que a menstruação estava atrasada foi um alerta total na equipe. Pedi vários exames inclusive o de gravidez, mas ela nunca ia fazer. Sempre o mesmo papo que estava grávida e a barriga crescendo. Até que certo dia comprei o exame de gravidez e levei um kit para unidade, ela chegando para fazer o curativo não teve como escapar do exame que deu negativo. Prontamente ofereci a ela vários métodos contraceptivos, como tínhamos discutido em nossa reunião de equipe, mas ela recusou todos.
– Valentina, o que você acha de uma injeção a cada três meses? Nós vamos te lembrar! Você está ficando muito fraca para engravidar.

Ela nunca aceitou… para ela o poder da maternidade era algo inegociável.

A ascite continuava a crescer até que ela precisou ser internada para fazer uma parecentese, procedimento para drenar o liquido da barriga.Um amigo, cirurgião plástico, chegou a avaliar a ferida no braço que continuava a incomodar, mas não foi possível fazer um enxerto.

Valentina passou a fazer paracenteses semanais. Chegou-se a suspeitar de carcinomatose peritonial, o que não foi confirmado posteriormente.
Ela passou a não andar mais. E, nesse momento, a visitava em sua casa. Uma casa simples de madeira nos fundos da casa de sua mãe. Para chegar ao seu pequeno cômodo descíamos um barranco de terra em meio a galinhas, cachorros, e atrás da casa tinha uma mata vibrante.
Pensei no pior algumas vezes. A equipe estava triste,  todos gostávamos de Valentina e ela demonstrava, do seu jeito, um olhar agradecido.
Fui surpreendido certo dia com um pedido de autorização para que um pastor a levasse em um rio para benzê-la por imersão. Simplesmente disse que a responsabilidade era dos sujeitos envolvidos e que não emitiria nenhum parecer quanto a isso.
Ali no fundo do poço, sendo cuidada pela sua mãe e seu companheiro, Valentina finalmente parou de beber. E como na mitologia de Prometeu, em que uma ave comia seu fígado e ele se regenerava, o mesmo aconteceu com ela.

 Passou a tomar os remédios indicados. Pouco a pouco a necessidade de paracentese foi diminuindo. O apetite voltando. Ela melhorava a cada dia. As visitas ficaram cada vez mais espaçadas até o ponto que começou a andar novamente. Engordou, engordou e engordou.
Agora ela já me procura aqui no posto. Virou evangélica. Há um mês veio querendo fazer um check up.
– Quem te viu quem te vê, Dona Valentina!

*CAPS-AD: Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas. Centro de atenção à saúde voltado para cuidados à saúde mental, especialmente ao tratamento da dependência de álcool e outras drogas.

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