Rejane e Dirceu

por Marina Galhardi

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Ela chegou no dia seguinte, atordoada. Perdera o pai na tarde de Natal em casa. Queixava que lhe faltavam os remédios para lhe tratar a ansiedade, mas não era só. Gemia e chorava: ‘doutora, eu perdi meu velhinho doutora, ali sentado na cadeira no dia de Natal!’ A dor pungente falava através de seu corpo, que se agitava para frente e para trás, um olhar apertado e sofrido que vertia lágrimas, as mãos trêmulas, os cabelos e vestes descuidadas, a voz rouca e embargada gritando a dor que ela preferia que fosse física. Era o retrato do sofrimento humano. De luto. ‘eu quero ir também, eu quero ir com meu velhinho, o que vou fazer sem ele, doutora?’. Talvez pudéssemos empregar com ressalvas: estava fora de si.

Ele chegou três dias depois. Eu não o conhecia. Falava alto e sozinho na sala de espera. A equipe estava ressabiada: ‘cuidado para atendê-lo’, julgando-o violento ou alcoolizado. Já na sala, começou a cuspir as palavras, raivosas, desordenadas, sem muita coerência, atropelando-se. Queixava-se de ter sido mal atendido em outro serviço de saúde e que tinha que fazer um exame e não sabia porque ou onde, queixava-se de um remédio que tinham lhe dado que acabaria com seu fígado, queixava-se da vacina para hepatite que estava tomando e não deveria. Tinha raiva no seu tom, nas suas palavras, nos seus gestos amplos e rápidos com os braços, nas suas pernas que balançavam sem sair do lugar. Mas no seu olhar tinha medo. Um desespero contido. E repetindo sem parar as sentenças ‘me deram esse remédio aí, não sabem que eu não posso, que vai acabar com meu fígado e não me adiantou de nada”. Eu permaneci em silêncio, deixando que esvaziasse toda a raiva. E então: “Os médicos não sabem o que fazem, dão qualquer remédio aí, qualquer porcaria para gente tomar. Meu sogro, meu sogro morreu aí no Natal, dentro da minha casa, deve ter sido por isso, das porcarias que os médicos davam para ele tomar’. Entendi, sorri de leve, e de tudo isso lhe perguntei: ‘como foi isso? me explique melhor’. As lágrimas vieram junto com uma voz suave, baixa, lenta.

Saí naquele dia sorrindo, pensando o quão afortunada eu havia sido de presenciar, assim por acaso, formas tão distintas e intensas do luto da mesma morte. Olhei (não sem poesia, claro) para aquelas duas situações e mais uma vez tive a certeza de que o ser humano na sua essência é cativante. Nos sofrimentos e nas alegrias. Esta oportunidade havia me enchido a alma de certo júbilo, como é bonito esse sentir do homem e como nunca estaremos exatamente preparados para as maneiras como se manifesta. Minha dúvida era se eu havia feito alguma coisa por eles, a certeza era de que eles tinham me enchido de um aprendizado daqueles que não se pode medir ou explicar.

“Dê voz à tristeza. A tristeza que não pode sussurrar a um coração sofrido leva à sua destruição.” (Shakespeare)

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