​Adoçante?

por André L. Silva
Mais um dia na Unidade de Saúde. Mais uma agenda cheia de demandas espontâneas. Mais pessoas. Mais um gole de café. Ok, é a vida seguindo, é a agridoce sina de ser médico de pessoas, de famílias e de comunidade.

Penúltimo atendimento da manhã, dona Sônia, 80 e muitos anos. Aquela senhorinha pequenina, rechonchudinha, mais uma senhorinha. O caso? (e a nossa mania de querer rotular e dar diagnóstico a tudo) Diabetes pouco controlada. 

Breve história que dona Sônia conta. Mais uma. Às vezes esquece-se de tomar os remédios e de aplicar a insulina. A visão cada vez mais borrada. Ok, não foi a primeira do dia.

– E a alimentação, dona Sônia? Como que a senhora faz?

– Ah, doutor, comida de pobre, né? Como moro sozinha, eu “me viro” com o que consigo. Um feijão, um arroz, essas coisas. 

– E a senhora adoça as comidas com o quê? Açúcar ou adoçante?

– Doutor, confesso que uso açúcar, mas pouquinho. Ou quando não tem, não uso nada.

Exame físico… Orientações de praxe… Solicitada avaliação do oculista… Receitas… Ok, não foram as primeiras do dia. Mais um dia.

À tarde, pouco antes de sair, converso rapidamente com a Elisângela, agente de saúde, sobre a consulta e sobre as orientações dadas à dona Sônia, inclusive sobre o adoçante:

– Olha só, imagino que ela tenha ficado com vergonha de te contar, mas ela passa muita necessidade, chega a passar fome. Mora de aluguel em um quartinho, está devendo 2 meses e sofre muita pressão da dona do quarto. Está devendo dinheiro de empréstimos que fez para tentar tratar a filha dependente química que vive “no mundo”. Quem ajuda muito ela, inclusive com refeições, é o vizinho dela, o Alemão e sua esposa.

– Hum, sendo assim, quem sabe a gente faz uma visita a ela?

Ok, dito isto, mais um dia se encerra. Vão-se horas, dias, e uma semana depois, retomamos a conversa e partimos para visitar dona Sônia. Somos recebidos na entrada pelo Alemão, seu vizinho:

– Pessoal, dona Sônia está internada. Sofreu uma “isquemia cerebral” e levamos ao hospital. O médico lá disse que não foi grave. Ela deve ter alta nos próximos dias. Informo vocês.

Bate aquela culpa básica (e arrogante, até) de médico de família, sempre se sentindo mais responsável que de costume: deixei de fazer algo? A dose da sinvastatina estava baixa? Esqueci alguma orientação? Ok, mais um dia… Mais um dia, mais conversas com Elisângela e com a equipe de trabalho, até recebermos o telefonema do Alemão alguns dias depois:

– Dona Sônia já está aqui.

Planejamos a visita a casa dela. Mais uma da rotina de quem faz consultas no consultório e em domicílio. Dia marcado, no final da manhã, chegamos ao quartinho. Somos recebidos por uma dona Sônia enxergando com dificuldade. “Entrem, entrem!”. Glicose capilar (aquela medida na ponta do dedo) 300 e muito. Poucas sequelas motoras – provável ataque isquêmico transitório (lá vem essa mania de diagnosticar tudo. Pare para prestar atenção nela, cara!). 

– Dona Sônia, e como a senhora está fazendo com a alimentação? – pergunta Elisângela.

– Hum… ah, minha filha, eu comi um pão de ontem. – responde constrangida.

– E a senhora tem café, alguma outra coisa em casa?

– Oh, minha filha, só contando com a ajuda de Deus, do Alemão e da Tita (sua esposa).

Nos armários, apenas pratos e nada de comida. Na geladeira velhinha, água e a insulina na porta. No fogão, um resto de café frio. Quartinho pequeno, claro pela luz do sol que entra por uma janela, asseado, em ordem, graças aos cuidados da Tita e da própria dona Sônia.

Eis que, encima da mesa, reluz aquele pequeno frasco transparente com líquido incolor. Ele mesmo, o adoçante.

– Dona Sônia, e esse frasco aqui?

– Viu, doutor? Eu segui a sua recomendação e comprei o adoçante. Ao menos no café estou usando.

Engoli em seco. Idiota, idiota, idiota, como pude ser tão idiota? 

– Dona Sônia, vamos ver o que podemos fazer, tudo bem? Vamos ver outras possibilidades para que a senhora possa usar o adoçante, ok?

E, na saída, falamos em meia voz para o Alemão:

– Vamos providenciar alguns alimentos para ela. Você tem como receber e a Tita ajudar a preparar?

– Claro, pessoal. Aguardamos vocês.

Compramos alguns itens no mercadinho da esquina, e não esquecemos alguns vegetais (os médicos sempre dizem que é bom comer frutas e verduras, não é? E usar adoçante também, certo?).

Elisângela leva as compras e mais uma televisão pequena que ela tem sobrando em casa (dona Sônia não tinha uma) no início da tarde.

E me tranco no consultório. Idiota, idiota, idiota. Por que você reforçou justamente o adoçante para quem mal tinha o que comer? E algumas lágrimas de uma mistura de culpa e tristeza escapam como aves em revoada. 

Mais um dia, mais pessoas atendidas. Mais uma pessoa que usa adoçante. 

Já em casa, à noite, uma enxurrada de conclusões e aprendizados (não de diagnósticos, por favor): na vida, para seguir em frente e cuidando de gente, devemos ser como adoçante. Mesmo que não seja açúcar, mas que traga algum sabor doce para as pessoas. Sabor. Aquela sensação fugaz do gosto do feijão feito pela mãe, daquele cafezinho passado. Idiotas também apreciam sabores, e podem usar e ser adoçantes.  Antes de dormir, lembrei-me de um texto japonês muito antigo: 

“É como olhar no espelho precioso,

Você não é ele, mas ele é tudo de você.”
Em tempo: uns dois meses depois, dona Sônia faleceu. Foi enterrada no interior. Não pude dizer adeus. Pois é, idiota. A filha soube semanas depois, depois de vagar a esmo por aí. Tudo o que pude fazer, como um idiota prescritor de adoçante, foi acender uma vela dentro do coração, e enviar uma coroa de flores imaginária: 

“Dona Sônia, obrigado por tudo,

(de adoçante)”

Em tempo 2:  Pela sua gentileza de ter chegado até aqui, deixo de presente uma playlist: “A arte de ser como é”. Músicas que mobilizam o meu ser, canções do presente e do passado, músicas que manifestam emoções em idiotas como eu. Espero que apreciem.

Com carinho, A.

Apple Music: https://itunes.apple.com/br/playlist/a-arte-de-ser-como-e/idpl.52792866c5a74f84831db82cfb36e5a8

Spotify: https://open.spotify.com/user/12149067289/playlist/4UWYbSgkSU1KDGWdTdM174

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