Cadeiras vazias

por Lucas Gaspar Ribeiro

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Hoje, véspera de natal, ainda estou remoendo uma história que contarei a vocês agora. Ela ocorreu há 4 dias atrás, em uma visita domiciliar. Primeira consulta de um senhor de 85 anos. Não conhecia ninguém da família ainda porque começaram a usar o sistema público há 3 meses (ainda nem cadastro familiar pela agente comunitária tinham…).

A história começa 20 dias antes com um pedido do hospital das clínicas, onde o paciente faz seguimento por uma pneumopatia. No relatório estava escrito neoplasia* pulmonar, e para encaminhar o paciente para a urologia devido a neoplasia* de próstata.

(Para chegar a níveis secundários e terciários**, os pacientes precisam trazer o encaminhamento para ser avaliado na atenção primária**, trazido pela filha junto com o paciente.)

Era um dia cheio, dei uma olhada no papel, e encaminhei sem avaliar o paciente, afinal ele já estava no terciário. Sei que fiz errado, mas era um dia tão lotado, que solicitei para a enfermagem agendar uma consulta em breve para ele, mas já adiantaria o encaminhamento.

Vinte dias depois, a filha vem a unidade relatar que o pai estava em tratamento de pneumonia, em casa, diagnosticado pela UPA, e ele não estava muito bem, com um pouco de tontura e fraqueza. Frente a essa nova queixa, marquei uma visita domiciliar para o dia seguinte, afinal achei estranho um senhor de 85 anos, com câncer de pulmão, tratando em casa uma pneumonia.

Após essa breve introdução, vamos ao que está me consumindo – sim, piora….

Visita domiciliar é um momento único, é a chance de conhecer uma casa, conhecer uma vida, conhecer a família em seu habitat, coisas que não existem no consultório, e acho que não existem em outras especialidades. Logo entrando, fomos levados aos fundos, onde fica a cozinha, e no corredor lateral tinha alguns materiais de construção e 2 cadeiras de balanço, coisas que me chamaram a atenção.

Conheci o paciente, conheci sua filha, seu neto. Conheci a história da família. Uma tristeza só… muita dor, muito sofrimento em 1 ano e meio. Primeiramente foi o genro do paciente, esposo dessa filha, tinha um câncer de sangue, fez o transplante de medula, estava indo muito bem, até uma infecção que levou ele desse mundo há 1 ano e meio, deixando a esposa sozinha (nesse momento nosso paciente ainda morava com a esposa dele em outra cidade). Logo depois, o neto dele, filho dessa filha, se separou da esposa e veio morar com a mãe. Meses depois, foi a vez da esposa do paciente, faleceu nas mãos de sua filha (sim, essa mesma que nos conta a história), um problema cardíaco fulminante.

Imagina, perder 2 pessoas das mais próximas, o esposo e a mãe em poucos meses? Para piorar, pouco depois falece seu irmão!!! O irmão mais próximo, mais querido deles….

Nessa altura minha angústia, sofrimento, pensamento de – que história, que família, ainda bem que o pai está aqui com ela agora (o pai veio morar na casa há 2 meses!!).

Pergunto sobe emprego, renda, para entender melhor a dinâmica.

Ela me relatou que perdeu o emprego há 6 meses, e desde esse mês não tinha mais seguro desemprego. A renda da casa tinha 2 fontes: a aposentadoria do pai e o que o filho ganha trabalhando no UBER. Mas…. como podem perceber nessa casa o poço não chega a fim…. vão ter que vender o carro, está com um problema que não terão dinheiro para arrumar.. Menos uma renda penso eu… nossa senhora.. Como?? Sim, o raio cai mil vezes no mesmo lugar!! Nessa altura descubro que ela está em uma depressão profunda, em uso de medicação há mais de um ano, com altos e baixos… também pudera, é preciso muita resiliência para se manter firme nesse último ano.

Pergunto sobre o diagnóstico do pai de pulmão – ninguém sabe de nada, será que é câncer mesmo?? Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos…

Vou checar um exame do urologista, lá de onde nosso pacientezinho fazia seguimento anteriormente – Não acredito no que vejo, uma lesão grande, vegetante, logo na saída da bexiga – o câncer que o pessoal do HC (Hospital das Clínicas) falou, penso eu…. E agora??? E agora???

Pergunto a eles, vocês sabem qual o problema na bexiga, na próstata, que o pessoal do HC falou?

– Ah Doutor, eles falaram que tinha uma lesão, acho que é uma infecçãozinha né??

Nossa, acho que esse é o pior momento da minha profissão, falar a verdade em alguns assuntos… Respiro fundo, respiro, respiro – tenho a sensação que foram uns 10 min respirando. E falo: na verdade, o que o senhor tem, olhando para o paciente, é um câncer na bexiga, lá embaixo, por isso o senhor tem todas essas queixas de fazer xixi….

Silêncio….. silêncio … Silêncio..

Olho para a filha, olho para a auxiliar de enfermagem que me acompanhava na visita – olhos brilhando, cheio de lágrimas… mas em silêncio…

-Mas doutor, falaram que era só uma lesão que ele tinha, não é uma infecção?

-Não, não, é só um jeito mais leve de falar as coisas… facilitar para falar, sempre que falamos disso dói muito, sabe, então às vezes falamos do jeito mais “difícil”.

O nosso paciente em questão quieto, mudo, sem falar nada…

-Pergunto se quer saber algo, falar algo…

-E posso operar doutor??

-Olha, o senhor tem essa hérnia (na região inguinal, grande) e não quiseram operar alguns anos atrás porque acharam que o pulmão não iria aguentar (a história mais parece de enfisema que de câncer na verdade..). Acho que não vão operar o senhor, na verdade, não sei o que vão propor. Acho importante todos sentarem, conversarem, todos os filhos, os netos. O senhor é inteligente, sabe tudo que está acontecendo aqui. Vamos com calma, vamos ver o que vão decidir.

Prometo a vocês que vou fazer de tudo para ajudá-los, vou tentar adiantar a consulta da urologia (estava para 1 mês a agenda dele), tentarei encaminhar para o HC, onde já se acompanha o pulmão. Vamos fazer de tudo para que dê certo.

Falo, repito, reforço, pergunto, respondo…

Saindo da casa… Vejo as cadeiras, as duas, que um dia foi dele e sua esposa, hoje é dele e sua filha, e amanhã será apenas da filha…. que dor que me dá ver isso…

Saio pensando nela, na filha… mais uma briga que ela vai ter que vencer em pouco tempo… Torço para que tenha mais resiliência que nunca…. Pois, para mim, foi uma das visitas mais difíceis até hoje…

 

*neoplasia = câncer

**atenção primária, secundária e terciária são níveis do sistema de saúde. Atenção primária corresponde aos postos de saúde, clínicas da família, unidades básicas de saúde. Atenção terciária seriam os grandes hospitais.

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