Cleck

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por Antônio Modesto

Família, família
Vovô, vovó, sobrinha
Família, família
Janta junto todo dia,
Nunca perde essa mania
Mas quando o nenê fica doente
Procura uma farmácia de plantão
O choro do nenê é estridente
Assim não dá pra ver televisão
Família, eh! Família, ah! Família

Titãs – Família

Bebíamos na sala ele, o namorado e eu, conversando à meia luz e em meia fase. Contávamos com que idade tínhamos começado a beber, quando ele solta:
– Fiz xixi na cama até os quinze.
– Xixi na cama? Você tinha que colocar o colchão no sol até os quinze anos? – perguntou o namorado, me fazendo lembrar de quando minha mãe fazia isso no sobrado em Nova Iguaçu.
– Não… Eu não fazia xixi na cama toda noite até os quinze, já era raro. Mas eu usei fralda até os doze!
– Doze?! – o namorado não cessava de se surpreender. – Já nascendo pentelho…
– Mas tu andava por aí de fralda?! – perguntei, imaginando o desconforto, o volume, a escola. Imagina a escola!
– Não! Era só de noite. Aí eu comecei a tomar um remédio pra parar de fazer xixi na cama…
– Antidepressivo?
– Não sei, um lá que eu esqueci o nome, que me ajudou muito. Quando eu tomei esse remédio eu quase parei, só fazia de vez em quando, quando eu bebia muito…
– Bebia muito? Com quinze anos?
– Bebia muita água antes de dormir! Aí com quinze anos eu parei de vez.
Fiquei lembrando como era ruim o cheiro de colchão mijado.

* * *

– E agora tá morando meu irmão, a namorada dele e a filhinha deles lá em casa – ele conta.
– Tu não tinha um irmão que era xarope? Que tu escreveu outro dia no Face, e tal?
– É justamente esse!
– E ele agora tá morando na tua casa.
– Ele, a namorada, que fica super sem jeito, e a filha deles, que é uma fofa.
– Vocês são irmãos de mesmo pai e mesma mãe?
– Sim, sim.
– Puxa! Mas por que vocês são tão diferentes?
– Porque ele foi criado pela minha tia-avó.
– Porque tua mãe…?
– Minha mãe nada: quando meu irmão nasceu, minha tia-avó veio pra nossa casa ajudar. Então a criação dele foi muito influenciada por ela, e eu acho que isso deixou ele um cara que lida mal com as frustrações, meio babaca, sabe?
– Ah, tipo filho único criado com vó.
– Isso! Só que não era filho único, e era tia-avó.
– E cadê ela?
– Ela ficou com a gente até morrer, quando eu tinha uns quinze anos.
– Bem quando tu parou de fazer xixi na cama, né?
Quando seus olhos viraram plástico e sua boca congelou, eu sabia o que tinha feito. Já tinha visto aquela cara antes. Dava pra ouvir seu cérebro rangendo, os hemisférios destroncando, o arrepio na espinha, as imagens encaixando, o óbvio nunca visto.
– Que… do mal! – balbuciou, e eu o olhava contente, que delícia essa sensação de desvelo! Tomava ar, tentava falar alguma coisa, não conseguia. “O que que eu faço com isso agora?!”, devia pensar. Eu, inconsequente, não saberia responder.
– Muito obrigado, volta semana que vem – brinquei, e ele ria, reorganizando as ideias, voltando a si, entendendo a tarefa recém-surgida.
Bebemos.

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