Médico de Fotografia e Comunidade

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por Guilherme Bruno

Lembro-me como se fosse ontem de Dona Neusa chegando no meio de uma tarde de sexta-feira, dia tradicionalmente mais vazio no Centro de Saúde em que eu trabalhava em Belo Horizonte. Ela era uma idosa robusta, alegre, otimista, determinada e muito disciplinada, daquelas pessoas que te fazem pensar que quase não precisavam de você, de tão bem que sabia se cuidar.

Ela trazia em suas mãos uma máquina fotográfica digital novinha, carregando-a como se fosse um pequeno animal que estava machucado pelo caminho e que recolhera para que alguém pudesse salvar. “Alguém deve ter esquecido no Centro de Saúde e ela trouxe pra gente guardar”, pensei.

– “Boa tarde, Dona Neusa! Vi a senhora mais cedo na farmácia, já pegou seus remédios direitinho, não é?”

– “Claro, doutor! Preciso me cuidar, né? Na minha idade se eu não andar na linha, morando sozinha, filhos morando longe, o trem sai do trilho!” – brincou, sorridente como sempre, repousando a câmera sobre a mesa.

– “Verdade, Dona Neusa! Mas com a senhora eu não me preocupo, confio na sua disciplina!”

– “E eu também confio muito no senhor, doutor! E é por isso que vim lhe pedir ajuda.” – disse ela aproximando de mim a câmera digital. “Meu filho vai voltar para o Brasil nesse final de semana com meu neto que nasceu tem uns meses e eu não quero perder nenhum momento com ele! Não entendo muito essas novidades e ninguém lá na vizinhança tem paciência pra me explicar como funciona essa maquininha. Mas o senhor sempre tem paciência em me ouvir e então eu vim aqui hoje pro senhor me ajudar.” – disse, decidida.

Na faculdade de medicina e na residência médica a gente é preparado pra lidar com várias situações, doenças e adoecimentos. Mas ninguém te prepara pra esse tipo de surpresa, que só quem trabalha na Atenção Primária e precisa exercer a Competência Cultural de forma tão vasta pode receber.

– “Puxa, Dona Neusa! Que surpresa boa, tem muitos anos que seu filho está morando fora, não é? Então precisamos nos apressar porque essa câmera aí tem que ficar nossa melhor amiga hoje ainda!” – respondi, já procurando o manual na internet.

Na sexta-feira seguinte, no final do dia, deixamos um horário combinado para revermos as fotos e ajudá-la a selecionar as que desejava que fossem impressas. Poucas vezes vi alguém tão grata em minha vida!

As pessoas sempre me surpreendem, mais que os avanços tecnológicos. Principalmente Dona Neusa, agora eternizada nas selfies com seu netinho, numa época em que essa palavra nem existia…

 

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