Gabriel

por Marina Galhardi

Quando cheguei a sua casa ele estendeu os bracinhos parado na porta. Eu abracei. Ele falava palavras que eu não entendia. Seus olhos desviam para os lados e os cabelos são arrepiados do mesmo sabão de pedra que seca a pele do seu rosto. Ele não sabia, mas aquilo não era uma casa.

Hoje ele foi me visitar e brincamos juntos. “Esse é meu e esse é seu” ele me deu o carrinho.

“Vrum vrum” e quando fazia as rodinhas do carro passarem por sua barriga ele ria com cócegas.

Repetimos algumas vezes enquanto no outro braço eu carregava o bebê, seu irmão, que não chorou nem por um segundo.

Ela me olhava com olhos que eu nunca tinha visto. Não tinha documento. Não tinha dinheiro. Não tinha comida nem casa. Parece que não tinha mais marido. Mas tinha duas crianças. O olhar de sorriso para mim era como se me perguntasse porque eu brincava com elas. “Vrum vrum” eu continuava.

Quando iam embora, a mãe falou alguma coisa e Gabriel veio e me devolveu os carrinhos num sorriso tímido.

Beijei sua cabecinha. Até mais.

Ele não tinha brinquedos, nenhum.

De noite, em casa, eu chorei.

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