Não sou peixa pra morar no rio

por Mônica Lima

Semana hard essa! Existem aquelas semanas em que você tem certeza de que carrega as dores do mundo, parece que todo paciente decide contar os motivos profundos de seu sofrimento, até aqueles que tratamos a tantos anos, pois essa semana foi uma delas.

Histórias de abusos na infância,  de agressões físicas e verbais do cônjuge,  de submissão forçada a vontade do parceiro, de filhos presos, de traumas físicos e mentais.

Dona Raimunda foi uma dessas essa semana, sentou na cadeira do meu lado já puxando a  cadeira para longe de mim, postura ereta, inexpressiva. Eu não me lembrava dela, passou comigo somente uma vez no final do ano passado para que eu pedisse suas rotinas, faz acompanhamento no reumatologista em outra cidade onde morava antes de vir pra Cajati.

Na época veio com queixas diversas, dor aqui e ali, dispneia progressiva que piorava quando deitava, insônia, conversamos, examinei e pedi alguns exames que nunca fez. Voltou agora mais de um ano após do mesmo jeito.

Disse-me que perdeu a paciência quando foi fazer um exame em outra cidade e quando chegou lá o exame não estava marcado na planilha deles, jogou tudo pra cima, não queria mais nada, não fez nem o de laboratório (nessa hora eu já estava me preparando para dar-lhe uma chamada de atenção estilo Monica).

Então ela disse que o reumato pediu vários exames e que ela estava fazendo na outra cidade onde ela morava antes de vir.

Afastei minha cadeira para olhar melhor essa senhora pequena, bem vestida com um taier bem cortado e bordado, o cabelo arrumado. Disse a ela, sim senhora, a senhora não está feliz aqui em Cajati né, por isso a senhora não fez os exames?

Ela desabou, a mulher perdeu toda a postura e desabou a chorar contando que foi obrigada a vir morar em Cajati pelo marido, venderam a casa lá, e aqui estão morando de aluguel.

Contou que quando estavam escolhendo a casa para morar o marido e alguns filhos falavam que ela nunca estava satisfeita com nada. “Mas doutora, fomos ver uma casa no barranco e uma quase dentro do rio, não sou lagarto pra morar no barranco nem peixe pra morar no rio.”

Enfim o marido comprou um lote em um loteamento super caro (para se aparecer para os parentes dele ela diz), e está pagando, não tem dinheiro para construir e o preço da parcela do lote é o dinheiro do mês, até o dinheiro para comida se acabou, o marido diz que se ela quiser pode voltar a viver na casa que venderam no porão  (venderam para o filho), e que Cajati é o lugar onde vão morar até morrer.

Então sim, a consulta se fez de fato, conversamos sobre seus sintomas, sobre a base do seu sofrimento: frustração,  revolta, saudade;  exames alguns poucos, mas meu ombro e abraço ela teve naquele momento.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s