Quando a chuva traz o impossível

por Thereza Horta

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A unidade estava vazia, chovia o dia todo, muitos usuários precisaram mudar os planos e cancelar seus compromissos de saúde.
Os acadêmicos aguardavam por mais atendimentos, lindamente vorazes pelo conhecimento e aplicação das teorias da academia.
Fui buscar minha agenda para entender as faltas. Avaliar se necessitava de algum planejamento ou busca ativa. Busca ativa. Sim. Ativamente, entrei na sala onde acontecia o acolhimento, à procura da minha agenda e encontrei o que não buscava, mas precisava estar ali.
Uma usuária sentada relatava suas queixas de um lado da mesa. Do outro lado, a equipe de enfermagem, dedicada, tentava achar uma resposta para aquela senhora nas agendas no computador.
Olhei a cena, sem dar importância. Trivial. Conferi a agenda, as faltas, sem maiores demandas. Uma das colegas sussurrou, “Vamos perguntar pra ela”.
Levantei os olhos como quem sabe o que está por vir.
“Tem vaga na sua agenda, Doutorinha?” (Carinhosamente, alguns me chamam assim).
“Tem sim”.
“Que bom! Que dos pacientes impossíveis, a sua equipe que dá conta. Não sei porque, deve ser porque a Doutorinha é professora”.
Achei interessante a visão da equipe, minha empenhada e querida equipe de acadêmicos do 11° período da Medicina.
Autorizei a marcação, sem me preocupar muito com o impossível em questão.
Seguimos o atendimento.
Cheguei à sala para discutir o caso.
Dor no peito. Dispneia. Sudorese. Zumbido no ouvido. Dormência nas mãos.
 “As duas mãos?” “Sim, doutora, as duas.”
Ok.
Revisão rápida do prontuário enquanto faço perguntas quaisquer que não me lembro, nem das perguntas, nem das respostas.
Muita informação, muita avaliação médica, muitos exames, muitos encaminhamentos, muitos anos.
A mesma queixa!
A mesma queixa!
Dor no peito. Dispneia. Sudorese. Zumbido no ouvido. Dormência nas mãos.
Enfermeiro. Generalista. Ginecologista. Cardiologista. Pneumologista.
Exames de sangue, de urina, raio-x, eletrocardiograma, teste ergométrico…
Nada!
A mesma queixa!
A mesma queixa!
Dor no peito. Dispneia. Sudorese. Zumbido no ouvido. Dormência nas mãos.
Impossível!
Impossível é não ver que não dá para encaixar no livro, na caixinha de um processo fisiopatológico exaustivamente estudado e ensinado!
Impossível!
Largo o estetoscópio, o carimbo, a caneta!
Puxo a cadeira ao lado dela e começo a cuidar do impossível.

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