E a vida? Como vai?

por Vinicius Siqueira 

(aluno do 12º período de Medicina (UFRJ) e interno na CF Victor Valla, Manguinhos, Rio de Janeiro )

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Quando estamos no chamado “ciclo clínico” do curso, que se estende, mais ou menos, do quarto ao nono período da graduação, temos a oportunidade de conhecer um número incontável de sintomas, síndromes e doenças, todos detalhadamente explicados, desde as suas bases moleculares mais complexas até as últimas terapias lançadas ou ainda em teste. É uma carga de informações novas capaz de excitar os nossos neurônios e o nosso ego, de tal maneira, que a ideia de ser médico e saber aplicar todo aquele conhecimento nos encanta e fascina.

Eu me recordo bem da minha primeira crise durante o curso, quando, ao final do ciclo básico, quando os genes, moléculas e células povoavam nosso dia-a-dia com uma frequência estressante. Questionava se eu desejaria, de fato, ser médico, dada minha grande dificuldade em me adaptar àquele estudo. Confesso que era um desgaste imenso sair de casa todos os dias para assistir àquelas aulas, numa sala à meia luz, sentado numa cadeira desconfortável. Mas me agarrava ao relato consolador dos meus veteranos de que depois melhoraria, quando chegasse o “ciclo clínico”.

O esperado “ciclo clínico” chegou e, de fato, as coisas melhoraram. Fiquei feliz de abandonar um catatau de moléculas e receptores e dar uma folga à proteína G, a fera que conduzia meus pesadelos em noites mal dormidas. A transição foi para melhor, mas acabei me acostumando ao modo como estudávamos as doenças e, com o tempo, também me cansei e voltou a ser um suplício ter que memorizar listas de sinais e sintomas para aprender a encaixá-los em cada enfermidade.

Um momento feliz desse período era o contato com os pacientes internados. Uma oportunidade de conversar, de examiná-los diariamente, acompanhar sua evolução clínica, escutar suas dúvidas, lamentos ou lampejos de alegria que surgiam naquele mar de sofrimento e tristezas que muitos enfrentavam diante de doenças graves ou muito debilitantes. Era bom sentir como as coisas aconteciam na vida real e uma máxima se tornou muitíssimo comum naquela época: “o paciente não lê o livro”. Isso me suscitava um questionamento: “então porque perdemos mais tempo com os livros do que com os pacientes”?

Nós estudamos numa universidade com profissionais muito competentes. Essa afirmação é incontestável no âmbito do conhecimento clínico e teórico de nossos professores e uma meia verdade quando os analisamos do ponto de vista humano, uma vez que nem todos tem sua sensibilidade apurada para enxergar outros aspectos além do clínico. Mas é importante pontuar que, ainda assim, aprendemos com grandes mestres de Medicina e humanismo.

A minha mais grave crise durante a faculdade aconteceu quando perdemos completamente o contato com pacientes, no oitavo período, e passamos a ter uma grade horária cem por cento teórica durante um ano inteiro, o ano que precede o internato. Nessa época, minha vontade de sair da cama para ir para a aula era nula.

Foi quando iniciei um estágio em Atenção Primária na Rocinha. Eu fiquei mal colocado no concurso da Prefeitura e, no dia da escolha do local de estágio, o único local que restava e que eu era capaz de localizar mentalmente no mapa do Rio era a Rocinha. Saí de lá um pouco desapontado com a clínica que me tocou, por ser longe de casa e incrustada numa favela que eu não conhecia. Fui fazer minha matrícula na CAP e contei à médica que me atendeu e ela me disse que eu seria muito feliz com essa experiência, porque as coisas não acontecem por acaso.

O presságio dessa pessoa, que se chama Adriana e eu só vi mais uma vez na vida, não poderia ser mais certeiro. Conhecer a Rocinha e me inserir no dia-a-dia daquela clínica fez cessar os questionamentos que eu trazia sobre insistir em ser médico ou não. Eu havia me encontrado e era muito feliz o dia que eu acordava e saía de casa para uma jornada de quase uma hora dentro de um ônibus e mais alguns minutos morro acima rumo à clínica.

(me estendi longamente nessa história que eu contei com uma única finalidade)

Na Rocinha, eu apliquei muitos dos conhecimentos adquiridos na universidade. Tive a oportunidade de ver doenças variadas, apresentações atípicas, traçar raciocínios diagnósticos complexos, solicitar exames laboratoriais e aguardar ansiosamente pelos seus resultados, abordar pacientes saudáveis ou pacientes extremamente graves, que viriam a falecer menos de 24 horas após a consulta. Eu me lembro da sensação de me sentir médico, talvez pela primeira vez. Valorizei o tempo que eu passei estudando doenças.

Mas na Rocinha eu aprendi que o paciente não é apenas um conjunto de células que adoecem. Aprendi que Medicina não é estudar doenças e deve ser muito pouco eficaz o médico que assim pensa. Na Rocinha, eu aprendi que faz parte da consulta perguntar como o paciente se sente, o que ele acha que tem, o que ele espera de mim, qual o melhor tratamento para seu sofrimento. Lá eu aprendi a conversar sobre a vida com o meu paciente e descobri o quanto isso é um “santo remédio”.

Toda essa história me voltou à cabeça quando, na terça-feira, atendemos uma paciente com a língua e o resto do corpo formigando, isso associado a algumas aferições de pressão acima de 160 nos últimos dias. Uma hora antes, ela havia sido atendida na UPA e saiu com uma prescrição de fluconazol e dexclorfeniramina, além de uma injeção de prometazina a ser aplicada na hora, mas a paciente resolveu buscar uma segunda opinião na clínica da família antes de tomar as medicações.

Durante a consulta, apliquei o melhor raciocínio clínico que eu poderia para tentar entender aqueles sintomas. Busquei compreender a sua história em detalhes. Mas também me lembrei de perguntar o que aprendi na Rocinha. “E a vida? Como vai?” Estava tudo bem. Insisti mais um pouco, mas não consegui que ela falasse muita coisa. Eu notava no fundo dos seus olhos que queria falar. Naquela consulta eu não consegui, mas deixei a porta aberta para que voltasse quando quisesse.

Eu fui muito feliz por ter conhecido a Rocinha, Adriana estava certa. Lá conheci os primeiros médicos de pessoas da minha vida e sou muito feliz por isso.

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