WAZE

por Antônio Modesto

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“Não conheço esse caminho”, pensei ao olhar o mapa no celular. “Mais curto… Rua reta, compridona… Não deve ser favela”. E saio da avenida pela esquerda, a caminho da supervisão do Mais Médicos.

Dirijo por quatro quadras. “Onde é que vira à direita, aqui ou na próxima?”. Na esquina seguinte, dois garotos sem camisa se agitam, me olham muito, tem alguma coisa na mão de um deles, será guarda do morro? Paro o carro. É guarda do morro e tá olhando pra mim. É uma pistola na mão dele. Tá segurando esquisito, junto à cintura, mas tá apontada pro meu peito. Dá pra ver o buraquinho do cano. Tá apontada pro meu peito.

“Se eu tivesse essa ocupação, em quem eu atiraria? Em quem parecesse uma ameaça. Tenho cara de trouxa, meu carro tem placa de São Paulo, celular pendurado no para-brisa com um mapa. Que mais? Mostrar que eu tô desarmado”. Ponho uma mão do lado de fora e a outra fica aberta, apoiando o volante com o punho.

– Bla bla bla bla!

Não entendi. Tô desarmado, não é possível que me alvejem. O buraquinho do cano continua a dez metros apontado pro meu peito. Ia ser um tiro esquisito, mas ia me colar no banco. Sinto um comichão no esterno.

– Abaixa a mão! Pode abaixar a mão! – diz o que está desarmado.

– Vem pra cá! – diz o que está armado. Ele também segura um saco de objetos brancos que não devem ser hóstias. Hesito. Já viram que eu tô desarmado e me chamam. Vou?

– Pode vir, vem pra cá! – repete. Impossível não ir. Primeira marcha, pouca pressão no acelerador, o comichão no esterno piora.

– Oi, pessoal, foi mal, tô indo num posto de saúde em tal lugar, desculpa aí…

– Tá perdido? – a pistola sumira, e agora ele me aponta uma gentileza mais desconcertante que a arma. Um ruído indica que ele traz um walkie-talkie na cintura.

– Não, tô aqui seguindo o Waze, normalmente eu vou por tal rua, mas dessa vez ele me mandou pra essa aqui…

– Ih, isso é longe pra cacete! – diz, enquanto o amigo olha o celular no parabrisas.

Já ia dizendo “ótimo, deixa eu voltar pra avenida, tchau” quando chega um sujeito perto da janela. A marcha, o olhar e os dentes sugerem etilismo crônico e trabalho precário.

– Onde é que cê vai?

– Vou num posto de saúde na rua tal, em frente a tal coisa.

– Ah! Segue aqui direto, direto; quando chegar em tal lugar, vira à esquerda e depois segue adiante.

– Eu também posso voltar e pegar a rua tal, não tem problema…

– Não! – diz o rapaz armado. Vai por aqui! É tranquilo!

“Tô vendo”, penso.

– Pega essa aqui até tal lugar, vira em tal lugar e segue adiante – o rapaz repete.

– Beleza. Mas não vai atrapalhar o rolê de vocês, aí, não?

– Nada! Vai lá, vai lá!

Se o gatekeeper disse que pode, vamos nessa. Primeira marcha, segunda, vidros abaixados, cara de “com licença”, sigo pela rua comprida. Não vejo mais ninguém armado. Adiante, a via fica estreita, entre uma ribanceira pra cima e outra para baixo. Um carro parado me impede de seguir, e uma mulher arrasta um pedaço de tronco para fechar a passagem atrás dele.

“Eu tô num lugar que tem um bloqueio na rua. Puta que pariu”.

– Oi! Eu tô tô indo num posto de saúde em tal lugar, pode passar?

A mulher se atrapalha em dar atenção a mim e ao seu motorista, que grita alguma coisa de dentro do carro. “Fecha aqui depois, tá?”, ela diz apressada, logo antes de entrar no carro e partir.

“Fecho ou não fecho?”, me pergunto qual risco queria correr. Desligo o carro, abro a porta e arrasto o pedaço do meio dos três troncos que impedem a passagem, com a certeza de que, em algum lugar dali, tem alguém me olhando.

A rua alarga novamente. Chego no posto em dez minutos. A médica está atendendo uma gestante.

– Antônio, que bom que você chegou! Essa é fulana, ela teve diagnóstico de sífilis em agosto,tava um pra sessenta e quatro, repetiu os exames agora, mas ainda tá um pra oito…

– Oi! – digo pra gestante. – Eu sou Antônio, sou médico de família, trabalho no Mais Médicos e vim visitar a Doutora Fulana. Tudo bem?

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