A boa nova

old-lady(Portrait of an old lady, Suzanne Valadon, 1912)

por Lucas Gaspar

Era sexta-feira, e nesse dia teria que sair da unidade às 10h para uma atividade com os alunos da graduação na faculdade, então a agenda foi “pensada nisso”. Eram quase 09h00, iria para a consulta seguinte, uma conhecida minha já – dona Nadir – uma senhora de 70 e tantos anos, tinha se mudado para a casa de sua filha a fim de ter ajuda com seus cuidados – uma falta de ar que estava em investigação na geriatria, hipertensão, artrose de tudo quanto é osso do corpo e uma depressão (ahh essa doença que poucos escapam…). Enfim, a minha última consulta com ela fora há pouco mais de um mês, uma tristeza só, vejam o porquê.

Nessas crises de falta de ar, ela foi ao PA (pronto-atendimento), tendo o diagnóstico de derrame pleural, sendo  internada e recebeu aquele diagnóstico que ninguém ousa falar o nome – câncer (e para piorar, já estava disseminado em todo o abdome), imaginem o que foi essa consulta para nós… trabalhar uma realidade cruel e impossível de fugir, 2 dias após o diagnóstico – eu com aquela contra referência nas mãos, ela com todas as angústias na mente. Mas por que estou falando isso? Porque nessa consulta ela me confidenciou que o maior sonho da vida dela era viajar para o Mato Grosso (moramos no interior de SP) e se despedir de seu irmão – que já estava paliativo há 11 anos e agora já recebera o título de terminal. O que falo para ela? Vá, aproveite, se despeça (esse era meu desejo, e o dela também). Mas ela não tinha condições de saúde para tal. Então falei, acho que tem que esperar ver o que a oncologia vai resolver contigo, vá mantendo contato com ele, continue falando, aproveite ele ao máximo, mesmo estando longe fisicamente.

Hoje ela volta, logo no dia que tenho que sair mais cedo, vamos lá, será que operou? Será que ela está bem? (Veio com uma pessoa que nunca vira antes – depois descobri ser seu genro).

– Doutor, meu irmão faleceu há 3 dias, e eu não consegui ir vê-lo! Além disso, estou aguardando essa cirurgia que não sai… O meu mundo desabou, doutor.

Pronto – 15 segundos de silêncio que valem uma eternidade. O que eu, pobre mortal, posso fazer em frente a esse caos que está a vida dela??

– Eu imagino que deva estar muito difícil, na verdade, eu não imagino, Dona Nadir, mas eu percebo seu sofrimento. Não sei como poderei te ajudar nisso tudo, para ser sincero. Vamos pensar com calma, vamos pensar em partes nos acontecimentos. Me conte de seu irmão…

– Ah doutor, sabe, eram 11 anos como eu comentei com o senhor, eu falei com ele na sexta (há 1 semana), logo antes dos médicos sedarem ele, falei com ele, me despedi dele no final. ( se abre uma porta da esperança).

– Então, dona Nadir, olhe o lado positivo, a senhora se despediu dele, pode não ter sido fisicamente, ao lado dele, como era seu desejo, seu sonho mais profundo, por diversas razões, dentre elas a sua saúde, provavelmente a senhora não aguentaria tal viagem e atividades (e não mesmo, estava branca como sulfite), mas a senhora falou com ele, se despediu. Tenho certeza que muitas outras pessoas não conseguiram fazer isso.

– É verdade, o filho mais novo dele, mesmo, não conseguiu conversar com ele no fim, se despedir, apenas depois. E também né doutor, foi muito sofrimento para ele, e para toda a família que terminou, que acabou. Foram 11 anos lutando, sofrendo, agora ele está em um lugar melhor, descansado. (Ufa… essa luz se acendeu mais um pouquinho…).

– Com certeza, com certeza. Agora é hora de juntar os cacos, as dores, anos de dores, e se preparar porque está chegando outra batalha, a sua batalha. Eu imagino que quando temos um câncer, e muitos pacientes falam isso para mim, que a primeira coisa que vêm à mente é: tirem esse treco de dentro de mim, ele vai me matar, arranquem logo, e com a senhora, não deve ser diferente, estou certo? (Vejo os olhos marejarem, que dor, que sofrimento…)

– Sabe doutor, para mim teria operado no mesmo dia que soube, mesmo, mas não é assim. Aí vai o pedido pra secretaria, logo no feriado de setembro, para atrasar tudo, uma, duas, três semanas (eu fico pensando, que bom que nessa cidade são só 3 semanas entre o diagnóstico e o tratamento, imaginando fora daqui… mas guardo para mim), já fiz a parte da anestesia e tudo. Acho que semana que vem vão me chamar para operar já, começar a resolver isso, ficar melhor, é o que eu preciso. E essa semana virá meu filho com meus netos. Estou tendo muita ajuda, muito apoio em tudo, sabe doutor.

– Fico muito feliz dona Nadir, apoio, gente perto, gente ouvindo e acudindo é o que você mais precisa agora. Vamos esperar, vamos ver essa cirurgia. Vamos aguardar, infelizmente o processo é longo, demorado, mas está indo, está resolvendo. Já sabemos o que é e o que deve ser feito. Acho que a cirurgia vai ser bom também para pensar em outras coisas além do seu irmão. Para trazer todo mundo para pertinho, agora, que é o que você mais precisa. Quero que saiba que não vou deixar nenhum dia agendado para a senhora, quero que venha sempre que se sentir insegura, necessitando de uma conversa, porque no final, essa conversa já colocou bastante coisa para fora né… (E me ajudou também a ver que tem muitas saídas um caso que não está mais em meu “controle”, ajudando a me sustentar no aqui e agora, vamos em frente…).

E ela se vai, após um longo e caloroso abraço, junto com seu genro, para mais uma batalha, que venha a próxima conversa com a Dona Nadir, e de preferência com boas novas…

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