Médico cupido

por Luís Vilela

Quarta-feira à tarde, dia de visita.

Saímos eu, a agente comunitária (ACS) e a técnica de enfermagem.

Estacionamos em frente à casa do seu Erisvaldo, que normalmente iria sozinho ou acompanhado da filha ao posto de saúde, era a primeira visita em sua casa. A ACS adianta-me que a vizinha tinha pedido a visita por ele não estar comendo direito e estar muito magro. Uma pinscher nos recebe com latidos na porta. Seu Erisvaldo logo em seguida grita com a miniatura de cachorro: “já para dentro Mônica! Ela não morde, pode ficar tranquilo. Vamos entrar gente! Tudo bem doutor? Quanto tempo! Que bom que o senhor veio!”.

“Tudo bem!”. Adentramos a modesta, mas muito bem organizada casa de madeira. Todos se acomodaram e o seu Erisvaldo com os braços molhados e uma toalha na mão apontava para eu sentar no sofá. Acontece que Mônica me olhava com a cabeça torta em cima do sofá e latia sem parar. Deixei ela cheirar o dorso da minha mão e a safada me lambeu e se enfiou embaixo da minha mão para eu coçar. Ela parou instantaneamente de latir.

– Então Seu Erisvaldo em que posso ajudá-lo?

– Eu estou bem doutor. Mas já que o Sr. veio estou com uma dor aqui no cotovelo. Acho que é de lavar roupa. Esses dias também andei abusando para passar o fio da televisão naquela canaleta ali no teto.

– O Sr. Está morando aqui sozinho?

– Eu tinha me mudado para casa do meu filho em uma cidade a 50km, depois que minha filha morreu.

Aquilo me pegou de surpresa, pois, eu também era médico de sua filha há muitos anos e não tinha tido notícia de seu falecimento. E fiquei ali com um sentimento de pesar e tristeza, Mônica lambeu os meus dedos como que quisesse me consolar.

– Faz quanto tempo que ela faleceu?

– Uns 4 meses, doutor.

– O que aconteceu?

– Ela teve um infarto igual a mãe dela. Você sabe de todo aquele problema dela. Quando ela nasceu e fez a cirurgia no coração os médicos diziam que ela tinha sido a primeira da região a sobreviver a essa doença. Saiu no jornal e tudo.

Lembrei com carinho de Margarete, que faleceu aos 55 anos, das várias consultas, das suas conversas sobre o pai e suas manias, e do seu vasto histórico médico em decorrência de uma malformação congênita.

– O senhor não se adaptou com o seu filho?

– Sabe, doutor, eu não sou homem parar viver em uma edícula. Gosto das minhas coisas e fazer do meu jeito. Lá era tão pequeno que nem consegui levar este sofá.

– Tá certo. Deixa eu dar uma olhada neste cotovelo.

– Eu estava lavando roupa. Deixa eu secar bem.

– Parece que está tudo bem, pode ser de ficar torcendo a roupa mesmo. Acho que poucos dias de anti-inflamatórios deve resolver e alongar este antebraço também vai ajudar. O Sr. está se alimentando bem?

– O povo acha que eu sou muito magro. Mas eu sempre fui assim. Amanhã completo 90 anos. Sempre fui magrelo assim, doutor. Minha neta comprou asse negócio aqui olha: leite ninho. Mandou eu misturar com açúcar. É uma delícia! Comecei a comer demais e já estou maneirando, quando eu engordo não me sinto bem.

Riso de todos.

Saí dali revigorado e impressionado com a energia e disposição daquele homem.

 

A próxima visita era 2 casas acima na mesma rua da recém mudada, mas antiga paciente Dona Florinda.

Batemos a sua porta e o vira-lata caindo aos pedaços chamado Eduardo dá o sinal de nossa presença.

“Ah doutor! Pensei que o Sr. não ia visitar minha casa nova. Moça só fecha a porta se não o Eduardo foge pra rua”, diz ela a nossa técnica de enfermagem.

– Tudo bem, Dona Florinda?

– Tá tudo bem não. Deu uma alergia danada essa mudança, uma tosse que quase jogo meus pulmões para fora. Ainda bem que tinha um resto daquele xarope que o você tinha me dado, senão estava perdida. Tô toda dolorida de arrumar essas tralhas. E essa bagunça? E essa casa que não bate sol direito… O aluguel dá na mesma da outra casa quase. Não sei se tinha que ter mudado…

E no meio de todo aquele falatório eu fiquei pensando na Mônica e no Eduardo, este último deitado ali tranquilamente no tapete da sala, uma epifania! A música do legião, é claro, já ressoava em minha mente. Maktub!

– Dona Florinda! A Sra. tem que fazer um bolo.

– Para que bolo? Endoido é?

– Seu vizinho, aqui duas casas para baixo, faz 90 anos amanhã. Ele mora sozinho. Homem como ele hoje em dia não há. Lava roupa e arruma as coisas. Tem bom humor e está muito bem conservado. É um partidão, Dona Florinda!

Ela caiu na risada. Depois foi ficando sem graça e apareceu um sorriso de canto de boca, um rubor na face.

– O Sr. deu para juntar pelanca agora é?

A ACS parecia muito animada com toda aquela conversa e me solta:

– Ele tem casa própria, a senhora para de pagar aluguel!

Rimos todos mais um pouco. Atendemos as demandas de Dona Florinda. Orientamos que para toda aquela irritação com a casa nova era necessário sair um pouco mais. Ver o sol. E principalmente conhecer os novos vizinhos.

 

E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

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