Bom dia

por Lucas Gaspar

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Todos temos aqueles pacientes que você olha para a lista de agendados daquele dia, e quando vê o nome X, já dá um frio na espinha, já pensamos “Iche, o dia vai ser longo”. Uma dela é dona Joaninha, 35 anos. Uma pessoa que já conseguiu brigar com 100% da equipe, além da gerência e outros temporários. Comigo mesmo, que estou lá há pouquinho tempo, já tive problemas com ela. Será que hoje vai ser diferente? Bem, vamos lá, seja objetivo, não enrole, não pergunte o que mais. A dona Joaninha não é “digna” do método clínico centrado na pessoa (por mais que eu sabia que um filho está preso há 6 meses – injustamente(?).

– Olá Joaninha, em que posso te ajudar hoje?

– Dr. eu vim aqui para checar meus exames, que colhi mês passado (tossindo um monte para falar essa frase…).

Eu sabia que iria me arrepender na minha próxima frase, mas lá vai, “ E o que mais?”(um segundo de medo, horror nos olhos e aquela transpiração fria no canto da testa…).

– Estou com essa bronquite atacada também…

Ufa, pensei que seria pior, me safei, será que… não, não posso, mas não me seguro:

– O que mais posso te ajudar Joaninha? (você está louco?? Não se dá corda a leões…)

– Estou com uma dor na sola do pé há um tempo que está me incomodando demais, não consigo pisar na hora que acordo.

Pronto, agora chega, vamos ao que interessa, 3 sintomas está bom (afinal, isso eu não contei antes, mas era uma consulta de encaixe e tinha mais mil pacientes hoje…).

Consulta, vai, consulta vem… transcorreu numa boa até o final.

Então surge uma oportunidade para ela falar – estava demorando, quase 20 minutos!!

– Doutor, é o seguinte, eu já falei várias vezes que não viria mais aqui, você já deixou de me atender ao menos duas vezes quando cheguei mal aqui (na verdade lembro só de uma vez, que orientei procurar o PA porque iria precisar de Rx, era uma lombalgia com red flag, mas tudo bem, guardo essa informação só pra mim). E sempre quando venho aqui é a mesma coisa, sempre sou mal-tratada aqui. Fui agendar consulta pro besourinho (seu filho), só tinha agenda à tarde (realmente estou com um problema muito sério em agenda lá), e nem eu e nem ele podemos a tarde – porque ele tem aula e eu posso não ter folga na tarde da consulta (daqui 1 mês), e ninguém quer me ajudar nisso? Aqui a única pessoa que parece se importar é o senhor, e digo isso porque nunca nenhum médico daqui (a unidade tem 8 anos e uns 30 médicos em sua lista) me via na unidade e sabia meu nome, o nome do besourinho, eu tenho que te agradecer por isso, mas não dá para ficar nessa unidade desse jeito, já pensei em não vir várias vezes, mas acabo vindo porque sei que tem alguém que se preocupa aqui, mesmo que não sempre (ácida!).

Nesse momento cai uma ficha, que nunca tinha parado para pensar… Como o fato de conhecer o nome, a fisionomia de quem você cuida, e com isso fazer uma das atividades mais cotidianas de nosso dia: a simplicidade de cumprimentar as pessoas face a face, sabendo quem é quem pode fazer uma diferença enorme. Porque conhecer o nome, a família, a estrutura, não apenas lá dentro de quatro paredes, no consultório, ou na VD, mas também numa simples recepção pode mudar a forma como o outro te vê, e ajudar ela a ficar, para ser cuidada e se cuidar…

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