Na tapera

2016-12-08-22-00-41

por Daniel Puig

Morava no ponto mais alto do morro. Na alvorada, muito choro e tristeza, todos sentiam dissabor. A violência dava trégua infrequente. A sombra das árvores na subida atenuava o calor. Antes chovesse – mas nem isso era dádiva: deselegante, a chuva invadia as os casebres sem licença. De fora, a casa de pau a pique, taipa sem revestimento, falava do tempo que parou. Ali se chegava ofegante, suarento. Pela janela, protegida por tábuas emendadas sem pintura, a luz pouca entrava no ambiente, deixando ver o chão de terra batida, da cor do barro da parede nua, e o capricho possível na disposição dos objetos na cozinha: o botijão de gás coberto com capa de tecido estampado de frutas que lá não se comia; o fogão branco com as panelas bem areadas em cima – a refeição preparada, para o almoço que vinha perto; os potes de mantimentos na prateleira ao lado da porta de entrada, defendida por um trinco de madeira. O sofá do lado oposto denunciava o cômodo contíguo e era coberto cuidadosamente por uma colcha de chenille vermelho, roto, doado havia muito; o armário frágil e bambo, feito de compensado, guardava as roupas de vestir, toalhas, lençóis e panos asseadamente cuidados. E no canto, onde a claridade não chegava, um quase altar: fotos de crianças embrulhadas em plástico reaproveitado, conservando o que a memória deixava escapar; um calendário colorido com ilustrações de uma cabana na floresta em algum lugar do norte da Europa (presente da loja de material de construção): para não se desorientar pela memória que a idade apaga; um rádio de pilha, pelo qual se ouviam os louvores e intenções dos pagantes dos dízimos, e sobre ele, anotados com letra de forma grosseira em papel recortado de caderno, os nomes daqueles a quem pedir a proteção dos céus: os tempos de recursos parcos e a memória evanescente tornavam conveniente a carona na prece intercessória do rádio. Haveria perdão. Madalena, dizia que se chamava. Desconfiada. Depois de muito tempo explicava a desconfiança: gostava do anonimato. Mas não se furtava ao dever quando lhe vinham encomendar orações e súplicas. Era dessas a quem se confiar. Confundia-se com as paredes e o chão de sua casa pela cor da pele curtida do sol e da origem negra. Cresceu na fazenda criada pelos patrões – negro forro era seu pai e julgava-se liberta. Talvez fosse. Falava com ternura e saudades da fazenda, correndo no pasto e nos currais – lhe fariam falta as pernas –, tomando banho de açude e pitando fumo de rolo. Veio para a cidade trabalhar na casa da patroa, “muito sua amiga”, falecida fazia pouco tempo. Nunca havia estado ali. Boa pessoa, falava. Nada mais. Pouco depois se aposentou, mas seguia trabalhando – o dinheiro não chegava para o mínimo. Até as dores, de tão fortes, a impedirem de andar. Incompleta como a casa, a Madalena lhe faltavam dentes desde muito tempo: as simpatias não bastaram para que não os perdesse. Usava tranças dos dois lados da cabeça presas por retalhos de pano. Alguma nesga de jovialidade se via nesse traço. Havia 10 anos, amputaram-lhe as pernas. Ambas. Primeiro a esquerda abaixo do joelho e a direita, no meio do pé. Como seguissem secando os cotos, mais precisaram amputar. E sobre a cama, no altar em que se encontrava sentada, em cima das metades das coxas e o tronco firme, Madalena estendia um plástico grosso e de pouco uso onde picava os legumes do almoço, escolhia o feijão e temperava, quando havia, alguma carne que as netas ou sobrinhas punham a cozer. Lavada a superfície precária, no que contava com a ajuda dos parentes numerosos que entravam e saiam da casinhola – que em alguma coisa lembrava a cabana norte-europeia do calendário da parede –, punha-se a esfregar as roupas com sabão em barra e deitava-as ao balde no chão ao lado da cama para, após o molho, enxaguarem no cômodo anexo, onde o tanquinho dava conta do resto do serviço. Cumpridas as obrigações domésticas que nunca abandonou, desde a infância na fazenda, virava-se para a parede à esquerda onde as fotografias dos filhos e muitos netos e bisnetos lembravam a necessidade de suplicar favores a deus, proteção contra o mal, cura das enfermidades, “não sei que portentos”… Achava que sua fé era pouca. Como seu merecimento. Mas pedia por todos desde que foi atendida quando parou de sentir as dores que atravessavam dias e noites: um pacto depois do qual passou a se sentir como que anestesiada. Nunca mais tomei remédio. Pra nada. Falava do acontecido com assombro e eloquência: nessa hora as tranças não suavizavam a expressão de dureza que a lembrança da experiência trazia ao seu rosto. Depois seguia comentando, com leveza e graça, o êxtase – santa Teresa em Ávila, flechada pelo anjo. E com efeito, à sua casa acorriam peregrinos, os mais imediatos endividados, seus familiares e depois muitos outros, alguém com câmera de TV, estudantes, doutores, enfermeiros. O presidente da associação, com um andor improvisado. Para falar com o povo, dar palestra. E protestava, desconfiando. Não sou santa. E depois ria, sentada no altar da sua tapera pobre. Vê minha pressão, pediu um dia. Mas se estiver alta, Madalena, o que se há de fazer. Vai estar boa, desafiava. Sempre esteve.

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