A morte do meu pai

luto

por Carolina Reigada

Eu queria falar sobre a morte do meu pai.

Aconteceu em janeiro desse ano, 2016. Meu pai tinha insuficência cardíaca há quase 10 anos. Tomava as 11 medicações todos os dias, direitinho, e era acompanhado pela atenção secundária. Sempre foi um cara independente e seu maior medo era ficar “preso a uma cama”, por isso o cuidado com as medicações. Ele gostava muito do cardiologista que o acompanhava. “É um cara direito, correto”, ele dizia. Eu ficava feliz com essa confiança, pois acredito muito na relação médico-paciente. Não queria me intrometer muito, tanto porque meu pai não gostava das intromissões, quanto porque eu não queria ser médica dele: era filha, não podia acumular funções. Quando eu tentei acumular funções, nós brigamos e não gostei da experiência. Voltei a ser filha.

No natal de 2015, estava conversando com ele na cozinha, quando ele apagou. Inconsciente em milésimos de segundos, batida oca e surda da cabeça no chão. Corri pra achar pulso enquanto gritava para minha mãe ligar para o SAMU. Ele acordou logo depois, não entendeu o que estava fazendo no chão. A ambulância já estava a caminho, mas ele cancelou a ambulância. Ele não queria ficar internado.

Eu insisti, meu irmão insistiu, minha mãe, minha cunhada. Conseguimos vaga para internação, para marcapasso transitório, para cuidar dessa arritmia. Ele não quis.

Conversamos com carinho e com raiva. Conversamos logicamente e aos prantos. Fiz chantagem emocional. Cogitamos leva-lo à força para emergência. Desistimos de levá-lo à força. Ele não quis.

Meu pai não estava deprimido. Ele estava consciente da escolha dele. Depois, eu parei pra pensar nas vezes que conversei com ele: a dificuldade de ir à esquina encontrar os amigos, depois de descer para cuidar do jardim, depois de enxergar na tela do computador, depois de sair da cama. Acho que eu não percebi antes porque não quis. Meu pai não gostava mais dessa vida limitada que estava tendo. Sim, ele via os netos, conversava com as pessoas, mas…não era o que ele queria. E acho que não estava preparada para conversar sobre isso com ele. Na verdade, todas as vezes que eu tentei, eu chorei tanto que desisti.

Meu pai não se matou. Ele podia ter ficado internado e ter morrido sozinho, longe de todos, no hospital, no mesmo minuto que morreu em casa.

Hoje, ele faria aniversário. Hoje, me arrependo de não ter conseguido encarar essa fase da vida com ele. Acho que ele sabe o quanto isso me assusta, provavelmente me perdoou. Sinto muita falta dele todos os dias. Principalmente porque parece que ele não morreu. Parece que ele existia condensado em uma estrutura física, e agora ele existe em quase tudo que eu faço, toco, escuto, leio e lembro dele. E essa lembrança ainda é doída, mas acho que melhora.

Acho que o principal motivo de eu querer escrever hoje, além da saudade, é que eu não fui negligente com meu pai. Explico: no dia que ele faleceu, liguei para o médico dele para contar a notícia e pedir para ele assinar a declaração de óbito. Eu (e minha mãe) vínhamos ligando para ele nas duas semanas antes da morte, pois estávamos muito preocupadas com a arritmia. Porém, quando ele me atendeu, ele disse que não podia assinar a declaração, pois estava viajando. Até aí, tudo bem. O que doeu foi o que ele disse depois:

“Vocês tinham que ter me procurado antes, ele não precisava ter morrido, é uma causa tratável, que desperdício!”

Eu também achei “um desperdício” meu pai ter morrido. Mas, como ficou entalado, deixar eu colocar pra fora: não foi culpa minha, nem de ninguém. Foi uma escolha dele. E, se TODOS os envolvidos na situação (inclusive o médico) tivessem conseguido ter a empatia de perceber o mundo pelos olhos dele, teríamos entendido a escolha dele e facilitado a passagem para ele.

Desculpem, mas eu precisava falar sobre isso. Ontem não consegui dormir, sentindo “arritmia” no coração. Quem sabe, hoje melhora.

Fica a saudade, mas também o orgulho de que meu pai enfrentou esse último desafio como ele escolheu e como bem quis. Apesar de termos tentado tirar dele esse último motivo de orgulho.

Parabéns, pai!

03/10/16

3 comentários sobre “A morte do meu pai

  1. Seu pai foi muito corajoso e lúcido. Quem passa por um final de vida arrastado e sofrido, de um pai ou mãe, entende muito bem essa decisão. A medicina tem muitos recursos para prolongar a vida. Quando a vida tem qualidade, comemoramos. Quando a vida chega a uma mera manutenção do funcionamento orgânico, apenas minimizando a dor ou desconforto, é uma tortura para todos. Foi assim com minha mãe. Quem dera ela tivesse morrido com mais tranquilidade.

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