Toda água do mar

images-5

 

Canção “A Beira e o Mar”

Por: Gabriela Machado

Quase fim do dia. O sabiá, como sempre, marca presença nesta tarde de primavera. O barulhinho da água da fonte. Alguns grilos. A conversa na portaria. Tudo está calmo ao meu redor. Entranhada na minha carne, no entanto, habita um vazio ensurdecedor. Não sei dizer quando foi que abri a guarda para deixar meu espírito ser violentado. Essa semana houve um tiroteio do lado de casa. E, ao contrário de hoje, não havia nenhum silêncio no ar da tarde. Mal conseguia conversar com meu amigo de tanto tempo que estava bem ao meu lado. Helicóptero e tiros rondaram até a madrugada. No dia seguinte fui para a clínica da família que fica há aproximadamente 40 minutos de carro da minha casa. Chegando lá puxei o assunto do tiroteio. Me mostraram um vídeo de um ser humano caindo de uma pedra que fica no topo do morro aonde ocorria o caso. Eu fiquei horrorizada. E depois mais ainda quando ouvi o temido: ah, mas eu não sinto pena não. Bem feito. Como é de costume pra mim, nessas horas não consegui a frieza para dizer tudo que eu gostaria. Sou passional e as palavras se embolam com meus sentimentos em momentos assim. Me dou conta que ainda preciso de muita meditação e análise para lidar com isso. OK. Desço para o atendimento. A professora é nova. Ela está com raiva por que não queria estar ali. Preferia seu antigo local de trabalho. Então tudo parece ruim aos seus olhos, até que se prove o contrário.
Ao responder que queria fazer medicina de família vi suas feições mudando. Pelo amor de Deus minha filha, não faça isso! Você vai ter que trabalhar no SUS, você sabe, né? Não vai poder ter seu consultório! Tentei argumentar, depois achei melhor não falar mais nada.
No atendimento, ao chamar a professora, mais uma enxurrada em cima da paciente. Tão simplória que mal conseguia expor seus sintomas em palavras. E segue uma lista de ordens e culpas e tanto ódio no falar.
Coisas vão se quebrando dentro da gente. O fascismo corrói. Ele corrói os bons. No dia a dia, nas entrelinhas, nas palavras que não meço, na satisfação com o mal, em notícias não dadas, na falta de explicação, de cuidado.
Hoje de manhã eu ainda estava de ressaca. Ficou uma frase de uma música que sempre ouço, mas nunca tinha prestado atenção: você é a beira e eu toda água do mar. Cheguei na clínica e fiz alguns atendimentos. Ouvi as histórias, algumas difíceis, examinei, aconselhei meditação.. No fim das consultas recebi alguns abraços. Olhares agradecidos. Alguns pareciam um pouco mais aliviados. Um povo sofrido, cada um com suas questões, num contexto que não ajuda muito. Um filho que era surfista de trem e morreu aos 15 anos. A esposa que faleceu há 3 anos quando comecei a ter problema de pressão. Ah, isso começou por que tive uns aborrecimentos no trabalho. É muita pressão, doutora. Esses cortes eu fiz por que não podia bater em ninguém, então fiz comigo mesma. Vim por causa desse câncer, ele chegou um mês depois do meu marido falecer de câncer também. Se a gente parar pra pensar até parece coisa de outro mundo né mesmo, doutora? O corpo não dá conta, né?
Uma pausa na maldade. Sim, medicina de família, professora.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s