Deu bobeline

por Raquel Vaz Cardoso

img_0004“La tête de la femme” (Cabeça de mulher), Picasso, 1960.

Uma manhã dessas, eu não sabia o que me aguardava.

Uma mulher.

Que me enfureceu, me esgotou e mobilizou os meus sentimentos mais contraditórios. Depois da consulta, uma primeira conversa já com data marcada para continuar, parei para revisar seu prontuário e encontrei tábuas de salvação. Era isso. Eu “sabia”. E isso me aliviou. Para isso também, se não a maioria das vezes, servem os diagnósticos: para acalmar o sofrimento do médico e de familiares de pessoas que esticam e puxam as pontas da curva de Gauss. Nesse caso, com pessoas que fazem novas curvas, laços, remendos com suas formas. Elas não cabem em diagnósticos e protocolos, mas somos hábeis em fazer caber.

Ela voltou. E dessa vez eu estava protegida pela armadura do diagnóstico. E ela mesma me fez rir e me tranquilizar por dentro: “Você viu? Deu bobeline” [disse apontando para um relatório médico antigo]. Borderline. Ainda bem: um diagnóstico. Ou melhor, vários: “transtorno psicótico, transtorno misto ansioso, transtorno de personalidade borderline”. Mas ela tinha armas potentes. Dessas dos sentimentos. E eu me vi gostando daquela conversa, sendo seduzida por ela. Para além de relatos carregados de violência, abuso sexual, pobreza, conflitos intrafamiliares, processos judiciais, prostituição, uso de drogas. A essência de tudo me tocou. Questões de gênero, sobre o feminino. Ah, essas compartilhamos todas as mulheres. E ela ganhou minha atenção, minha condescendência, quando por um momento saí de trás da minha bela armadura montada à base de DSM, CID (compilados de diagnósticos e classificações médicas), porém não resistente a controvérsias, evidências e outras racionalidades e formas de ver o ser humano e seu adoecimento. Me vi admirando relatos e reflexões de Marinice. Relatos comuns, universais, tão frequentes entre mulheres. Penélopes. Marias. Joanas. Paulas. Anas.

Eu só quero ser feliz. […] Quando eu era mais nova eu achava que tinha que chamar a atenção de todos os homens, minha auto-estima era tão baixa que eu ficava feliz quando um homem me chamava de gostosa na rua. Uma vez cheguei a ficar pelada, eu e uma amiga, com dois homens dentro de um carro. Queria ser desejada. Eu achava que eu precisava daquilo para ser completa, para ser feliz. Hoje eu vejo que não tem nada disso […] Eu quero um amor. Quero ser amada. […]

Pois é. Elas. Aquelas velhas histéricas. Essas novas histriônicas. Eu te pergunto e me pergunto: quem as produziu? Quem as mantém? Quem nos mantém? Essas e aquelas mulheres. Seria mesmo melhor ser bobeline, juntar todas as contradições numa só? Ser mosaico, ser fênix. Ou mandar aos farrapos essa sociedade da qual somos apenas sintoma?

Eu sou sintoma. Tu és. Ela/ele é.

 

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