Mensagem Errada

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Por: Artur Mendes
      Com alguns pacientes se vai construindo um singular espírito de camaradagem. Sempre tem aquele que nos aborrece e nos faz querer sumir ao despontarem na entrada da unidade de saúde, mas geralmente, ao longo dos anos, constrói uma cumplicidade cujo impacto na assistência não podemos facilmente medir.
      Eu gosto (da maioria) dos meus pacientes. Gosto de conversar. Até desenvolvo por certas pessoas um carinhosinho faceiro. Por mais que tente manter alguma imparcialidade profissional e assim evitar confundir prioridades e fluxos do serviço, vou me permitindo uma ou outra demonstração de afeto. Coisa boba, que muitas vezes só é de mim para eu mesmo ficar sabendo e com isso aquietar o coração.
      Foi assim que criei o hábito de rezar pelos pacientes.
      Não sou religioso. Não piso com muita facilidade em uma igreja mas me considero, na pior das hipóteses, um sujeito espiritualizado.
      Assim, como ia dizendo, eu rezo pelos pacientes. Mas não é todo momento e nem por qualquer coisa! Rezo quando morrem. Rezo como se estivesse encomendando a alma. Gosto de imaginar um Deus barbudo tomando notas e recebendo com um abraço as pessoas das quais já não posso mais cuidar por aqui.
      Certa feita estava eu na reunião da equipe de saúde discutindo sobre as últimas dificuldades quando uma das agentes de saúde, de um salto, se lembra:
      _ Morreu a Dona Maria, você soube?
      Sim, eu sabia… Dona Maria “da rua de cima”… Acamada. Cuidou dos filhos sozinha por muito tempo e no fim da vida, vítima de um AVC, só conseguia mexer os olhos. Descansou, como se costuma dizer por aqui… Para essa eu tinha rezado já.
      _ Parece que teve uma pneumonia…
      Foi isso então. Eu tinha já desenvolvido o hábito de auscultar com muita atenção os pulmões dos pacientes acamados e verificar o padrão respiratório. Não tinham sido poucos os pacientes que perdi assim.
      _ Também, com aquelas andanças dela de madrugada…
      Como assim?!? A Dona Maria tinha voltado a andar?!? Uai, sô…
      _ Vivia fugindo de casa e dormindo na rua…
      Vixe! Eu tinha rezado pra alma da pessoa errada! Quem tinha morrido era a Dona Maria “dos cachorros” (apelido que ganhou por dormir muitas vezes na rua com um monte de animais). Me veio de imediato a cena daquela outra Dona Maria chegando no céu e São Pedro barrando (“Tá na lista aqui não… de repente é pra outro lugar…”). Eu precisava corrigir isso!
      _ O que foi, doutor? O senhor está “longe” aí…
      _ Nada não… é que eu acho que mandei uma mensagem errada…
        Pedi licença e fui até o consultório, a portas fechadas, desfazer o mal-entendido e explicar na reza que a Dona Maria era outra… E acho que foi bem a tempo. Vai que Deus não se dava conta do meu erro e achava que eu estava encomendando a outra alma pra tentar empacotar a Dona Maria “da rua de cima” mais cedo…

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