Historinhas azuis

dali
I
Quase 70 anos, aniversariando no dia da consulta. Fez uma dosagem de PSA por conta própria há alguns meses, deu normal. Ainda assim foi atrás de uma ultrassonografia “pra ter certeza que estava tudo bem”. Pagou do próprio bolso, não perguntei quanto. Parecia nervoso. Nesses casos olho o exame rápido, e estando tudo bem, já tranquilizo a pessoa pra acabar o suspense e poder conversar tranquilo. No exame a próstata estava ligeiramente aumentada, mas sem nenhuma outra alteração, então eu disse que estava tudo bem, só um aumento da próstata que era comum na idade dele, que não significava nada demais. Comentei que ele parecia preocupado, e perguntei o porquê. Respondeu que as filhas ficavam insistindo pra ele se cuidar. Então eu disse, em tom de brincadeira que a gente pra se cuidar precisava de um tanto de coisa, mas que com esse blá-blá-blá na TV por esses dias parecia que a gente tinha virado só uma próstata. Ele riu, concordou, bom sinal. Então perguntei se tinha algo mais além da próstata incomodando-o, respondeu que não. Me coloquei à disposição, fiquei de pé e estendi a mão, e ganhei um abraço. Tímido, vocês imaginam como é abraço de homem que não se conhece direito. Mas um abraço de alívio, sincero. Desejei feliz aniversário de novo, perguntei se ia ter festa e disse que aproveitasse bem. Ele sorriu, agradeceu, me desejou tudo de bom e saiu da sala.
II
Quase 20 anos, veio pedir exames de rotina. Eu gosto desse pedido de exames de rotina, porque me dá a deixa para perguntar bastante sobre a rotina antes de pensar o que devo examinar. Pois perguntei, e o máximo que identifiquei foi uma queixa de dor ao ter relações por causa de uma fimose. Expliquei que poderia encaminhá-lo para resolver isso, e que em relação a exames de rotina, os mais importantes na idade dele eram os de rastreio de infecções sexualmente transmissíveis. Ele sorriu, mas aquele sorriso desconfiado, sabe? Perguntei se tinha relações protegidas, se o assunto o preocupava. Me disse que sim, que ocasionalmente tinha relações sem camisinha, raramente, mas tinha, e que ultimamente fazia mais o papel passivo com o parceiro já que a fimose incomodava bastante quando tinha ereções. Expliquei sobre os riscos, mas não parecia necessário fazê-lo, ele já sabia. Ofereci testagem rápida, e comentei: “nada melhor do que a gente saber logo, né? Esperar muito tempo por exame é ruim…”. Ele sorriu, concordou, e foi fazer o teste. Deu negativo.
III
Quase 50 anos, veio saber se o PSA que solicitaram para ele estava normal. Pelo que vi, estava. Olhei o prontuário e vi que havia história de epilepsia. Perguntei há quantos anos usava o medicamento sem ter crises, disse que há uns 3 anos. Toma só um comprimido por dia, e acha que o comprimido o deixa meio…”devagar”, se é que vocês me entendem (aliás, entendem ele). Perguntei se queria tentar uma retirada lenta do medicamento para as crises, e o olho brilhou. “E pode?”. ” Pode”. Dei orientações sobre a redução gradual da dose e agendei retornos semanais para vermos como as coisas andam. Saiu feliz.

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