Ela e ele

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Por: Ana Paula Marcolino

Ela tinha o mesmo nome de uma colega do cursinho. Quando vi o nome no prontuário, achei que seria fisicamente parecida com ela (infantilidades de uma mente a la Amélie Poulain). Como eram diferentes! A moça era negra, franzina e bem antipática, devo confessar. Detestava proximidade. Descobri que, duma consulta com queixa ginecológica veio um pré natal. Ao longo do tempo, ela confidenciou que já sabia que estava grávida, mas tinha medo de julgamentos e, por isso, não disse na primeira vez.
A mãe da moça era usuária de crack. Já tinha passado por muitas clínicas de “reabilitação”. Perdeu as contas de quantas vezes. As irmãs se prostituíam (eram muitos barracos no mesmo lote, onde faziam os encontros, na frente das crianças, às vezes), em busca de conseguir usar também a substância. Ela mesma não usava. A avó era o seu apoio para não seguir nesse caminho, dizia.
Eis que no primeiro retorno, veio o resultado de HIV positivo. Ela disse que já sabia, não ficou surpresa. Na verdade, eu estranhava a frieza com que contava as situações de abandono e violência. Foi inútil encaminhamento ao serviço de Infectologia para acompanhamento conjunto. Ela informava o quanto se sentia discriminada: sou preta e pobre, deve ser isso! Ela demonstrou raiva pela primeira vez!
Supervisionada, segui o acompanhamento daquela moça. Eu era residente e me sentia tão descrente… tão inútil pra ajudá-la. Tinham também questões de um patrão que a demitiu porque descobriu que ela estava grávida! O que mais poderia acontecer?
Eis que ela sumiu… fui atrás dela, em casa… nada… sumiu… avó também não tinha notícias…
Um dia, fui à recepção, chamar uma pessoa para atender,  e ela veio pegando no meu braço… Estava magrinha. Não parecia grávida. Barriga murcha.
– Dra, a senhora aceita me atender?
Pensei “como assim? Eu procurei você o tempo todo!” e respondi: claro, menina! Tu me espera uns minutinhos?
– Espero sim…
Uns 20 minutos depois corri pra abrir a porta, com medo de que tivesse ido. Mas ufa, estava lá!
– Dra, eu menti. Eu uso crack também. Estava limpa há 7 anos, por isso não contei. Desculpe… – olhos no chão. Continuou –  tive recaída. Fui procurar o pai do meu filho, foi horrível! Minha mãe voltou pra casa, foi horrível! Meu patrão me humilhou de novo, foi horrível!
– Querida, eu é que lhe devo desculpas por não ter deixado claro que podes confiar em mim! Estou aqui! – ela aceitou um abraço, toque de mãos!
Segui acompanhando o pré natal, conseguimos que ganhasse peso, voltou o tratamento de HIV. Um dia, no momento de medir a barriga:
– Dra, meu bebê só mexe quando a senhora encosta na minha barriga. Nem a minha avó consegue que ele mexa!!
– Sério? Por que será?
– Deve ser porque a senhora tem uma mocinha aí dentro e ele vai ser namorador (eu estava grávida de 26 semanas, mais ou menos), ou deve ser porque a senhora é boa mãe mesmo…
– …
Ela não tinha idéia do meu sofrimento durante a minha segunda gestação. Nem poderia imaginar a angústia que busquei silenciar. Nem calcular o quanto estava triste, mesmo que visse a opacidade nos meus olhos, a qual procurava disfarçar diariamente. O fato é que talvez aqueles dois bebês, ela e ele, conversavam mais que nós duas.

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