Das diversas dores

Por Artur Mendes

      Manhã de atendimento em centro de saúde, pra quem trabalha ou já trabalhou, sabe bem como é que é: a gente se surpreende a todo momento com a variedade de situações. Não é raro não ter a menor ideia do que fazer pelo paciente. E não porque a variedade de casos clínicos seja extremamente grave!
      Vá lá, volta e meia aparecem pessoas com síndromes raras e doenças dos tempos de pé de página da faculdade. Apesar daqueles que acham que no ambulatório de atenção primária o que se vê é apenas diarréia e resfriado, já fechei alguns diagnósticos de doença de Adison, mieloma múltiplo, síndrome de Wilson, cirrose biliar primária e outros bichos que existem principalmente nas histórias dos livros para assustar calouros e recém-formados. Mas não é deste tipo de problema que estou a falar aqui… O que deixa os profissionais desconcertados realmente são aqueles momentos em que nenhum livro pode te ajudar… Resta pedir ajuda aos santos, sair correndo ou chorar… E às vezes a gente chora…
      Bom, mas vamos às vias de fato e exemplificar com um caso real (os nomes, as datas e os momentos de desespero explícito serão cuidadosamente omitidos para evitar exposição desnecessária do paciente e do médico, que por acaso é este que vos escreve).
      Como já começamos assim falando, estava eu… Não, melhor: um amigo meu. Bom, estava esse “meu amigo” atendendo em mais uma manhã no centro de saúde quando então chega aquele rapaz de trinta e tantos anos. Magrinho, meio careca, óculos finos e gestos delicados. Queixa-se de estranhas sensações, quase desmaios… Não sabe precisar desde quando. Não tem nada mais associado.
_ Mas você preocupou-se que pudesse ser o quê?
_ Ah, doutor… Não sei… só sei que tem uma dor no peito que fica por muito tempo… fico meio confuso…
_ Dome bem? _ ah, o truque de começar a buscar algo no campo mental…
_ Às vezes… Em algumas noites eu fico acordado pensando na vida…
      Certo. Temos alguma coisa. Lá fora, o povo brigando pela demora do atendimento. A enfermeira bateu na minha porta já umas duas vezes (quer dizer: na porta do meu amigo).
_ Olha, não está muito claro pra mim o que está acontecendo… Eu vou pedir uns exames mas fiquei pensando se você não gostaria de sentar para conversar com o psicólogo aqui do centro de saúde…
      E ele, meio incerto:
_ É… pode ser que ajude…
      Faço os pedidos, rapidamente vou à sala do psicólogo para combinar o agendamento e volto (não sem ser abordado por três pacientes no descolamento).
_ Olha, já está marcado para esse dia aqui. Você pode vir? Ótimo. Quanto aos exames, marque ali na recepção e quando estiverem prontos agende nova consulta, certo? Então estamos combinados.
      Nos despedimos com um aperto de mãos e chamo o próximo paciente.
      Um mês depois ele volta. Não foi à consulta com o psicólogo. Não sabe dizer a razão. Fez os exames: todos normais (é claro que estão normais! De onde tirei a ideia idiota de pedir exames?!? Exames pra quê?… Preciso de férias…).
      Continua com as mesmas sensações relatadas na consulta anterior. Lá fora a turba enfurecida quer ser atendida e imagino calmamente como seria se uma bomba atômica explodisse do lado de fora da sala e tempo parasse… Respirando fundo resolvo que algo precisa ser feito e não trabalharei nestas férias sob nenhuma hipótese (promessa facilmente descumprida meses mais tarde).
_ Olha… Os exames estão bons… Eu realmente não estou entendendo o que está acontecendo _ e, num arrombo de empatia _ mas eu sei que algo está lhe incomodando, só acho que não estamos conseguindo nos comunicar bem… Vamos fazer o seguinte – rasgando um pedaço de papel, começo a rascunhar – Já ouviu falar de diário alimentar? – ele confirma – Ótimo. Então esse aqui vai ser um diário destas “sensações”. Sempre que você sentir estas coisas você vai anotar aqui a data, o horário, o que você sentiu na hora e o que passava na sua cabeça naquele momento e em um mês você volta pra me dizer. Estou marcando aqui um horário, assim evita de você enfrentar fila aí fora e a gente pode conversar melhor.
      Ele concorda e nos despedimos.
      Em um mês, uma semana antes das minhas férias, ele retorna.
      Não: não preencheu o diário. Mas trouxe uma carta e queria que eu lesse (Mas o que vem agora?…).
      Na carta ele descreve o quanto é apaixonado por uma garota. Diz que é capaz de loucuras por ela (Loucuras?!? Esse cara não teve adolescência…). Tem um evento pra ir e ela foi convidada também. Não sabe se vai. Termina a carta com um “Dr., pelo amor de Deus, me ajude!!!”.
      Leio e releio a carta… A bomba atômica nem explodiu mas o tempo parou mesmo assim. Passo o papel de uma mão para a outra tentando ordenar as ideias. E nenhuma ideia vem…
_ Rapaz… E você nunca conversou com ela sobre isso?
_ Não… não sei como ela vai reagir…
_ Mas já pensou em falar?
_ Ah… Já pensei… Pensei se de repente minha mãe fizesse um almoço e eu convidasse ela…
      Esse cara não teve não foi só adolescência! Esse cara não viveu nenhuma outra fase do ciclo de vida depois disso!
_ Não, rapaz! Almoço na casa da sogra não! Isso a gente faz é depois!!! Você vai assustar a menina!
      Eu preciso fazer alguma coisa! Se eu pudesse sentar em um buteco com ele e tomar uma cerveja a gente resolvia isso em dois tempos! Caramba, eu sou um profissional!!! Calma: as férias estão chegando…
_ Olha, vamos fazer o seguinte: um plano. Sim senhor, um planejamento estratégico pra isso. Primeiro: vai lá na festa sim. Ora! A garota nem sabe que você existe. Vai na festa, precisa ir. Depois convida ela pra sair. Não é pra beijar na boca não! É só pra conhecer. Você precisa se apresentar pra ela. É assim que funciona, rapaz… A gente vai conversando e aos pouquinhos conquista… ou não… Mas a gente conversa primeiro.
_ Eu sou capaz de…
_ Loucuras, eu sei. Eu li. Mas corta essa! Ninguém gosta desta história de loucuras não! Vai com calma… E volta em um mês pra me contar, já vou deixar aqui marcado também.
      Ele retorna. Eu também retorno… das férias… Trabalhei menos que precisava mas estava mais descansado.
_ E então?
_ Ela disse não…
      Ora, claro que ela disse não. Por que razão diria “sim”?
_ E você?…
_ Estou… melhor… Já não sinto aquelas coisas não…
      Diagnóstico: paixão. Sofria, afinal, de dores por amar demais.

2 comentários sobre “Das diversas dores

  1. Rejane!! Mulher!! Muito obrigada pelo elogio, mas esse causo é de Artur, eu postei por ele =P
    Mas continua lendo por aqui que eu apareço de novo =)

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