Uma menina

por Ana Paula Marcolino

Ela veio pra uma consulta do dia (intercorrência). A mãe dizia sentir mau cheiro na parte genital da criança. Examinei. Estava normal, exceto pela higiene meio precária. Orientei o cuidado.

Veio mais uma vez com a queixa. Achei meio estranho. A técnica de enfermagem me chamou no canto:

– Dra, essa mãe é meio “fora da casinha”. Acho que tu devia ver se tem abuso aí!

– Tu acha? Que estranho… Vou ver então – eu começo a me questionar que obviamente a mãe falaria logo se a filha fosse abusada, óbvio!

Converso melhor, toco no assunto com jeitinho… a mãe parece não entender bem… ou não seria abuso mesmo! Eu devo ter exagerado! A técnica me influenciou a pensar uma coisa dessas! Afeeee….

Nova busca por atendimento! Resolvo fazer um atendimento só com a criança, consentida pela mãe. A criança desenha a si mesma….. com seis homens em cima dela! Peço pra ela me descrever o desenho… ela fala tudo. Não quero entrar em detalhes das situações de horror e tragédia das quais essa criança foi vítima… Aqui não é programa de sensacionalismo que busca audiência.

As situações estavam ocorrendo há 3 anos. A menina tinha 6 anos. Ou seja, as coisas iniciaram quando ela tinha a idade de minha filha, na época. Fui julgada por alguns por ter denunciado o abuso. Fui aplaudida por outros, por ter “resgatado a criança do lar abusivo”. Mas a lição principal dessa história é: o mundo é foda e às vezes uma mãe que tem retardo mental não consegue simplesmente falar. Mas ela fala. Eu que não soube ouvir.

2 comentários sobre “Uma menina

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