Um amor verdadeiramente lindo

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Autor: Luís Antônio Vilela

“É lindo!” Diria Caetano. E é lindo mesmo. Entra aquele casal de mais de 90 anos, estavam para completar bodas de prata. Se conheceram quando, ambos viúvos, foram em um baile da igreja. Aqui vai um adendo: é comum ver os filhos serem contra namoro do pai e da mãe quando eles ficam viúvos… Povo chato, hein?! Deixa os ‘véinhos’ serem felizes, pô! No causo em questão as famílias se uniram, teve o casório, tudo certinho, eles tem um monte de netos, filhos, mas moram sozinhos, são saudáveis e independentes.
Então ela me trouxe o amado:
– Doutor, mais umas verruguinhas para tirar. Esta aqui, atrás da orelha, esta sangrado, incomoda. Tem que tirar.
Não era a primeira vez. Eu já tinha tirado umas 3 e outros médicos cerca de 6. Algumas verrugas simples, outras lesões pré-cancerosas e alguns câncer de pele. Pele branca, exposta ao trabalho no sol da roça, por anos. Ele não toma remédio para nada. A cirurgia foi um sucesso.
– Doutor tem mão boa, nem ficou marca.
Pensei: acho que ele é que tem a pele boa, mesmo com tantos procedimentos sempre cicatrizou bem e praticamente não tem cicatrizes visíveis. Atrás da orelha ajuda a esconder também.
– O senhor gosta de alface?
– Gosto sim.
– Que bom, porque trouxe uma sacola. É de casa, doutor. Não tem veneno.
– Olha, que maravilha! Obrigado! A sacola era grande e eu tinha alface para comer todo dia umas 3 semanas.
Tempos depois ela volta:
– Bom dia! Meu esposo mandou um abraço para o doutor, ele sempre manda.
– Mande outro para ele.
– Acho que andei fazendo uns servicinhos lá em casa e estou com dores nas cadeiras.
Devido a artrose pela idade as vezes ela tinha dores quando abusava mais. Normalmente resolvia com uso de antinflamatórios por poucos dias.
– Sabe doutor, além das minhas dores, amanhã marquei uma visita pro meu amado. Ele está gripado. Comecei um chá de guaco. Hoje ele estava amuadinho. Tosse com catarro branco, nariz pingando.
– Combinado amanhã eu passo lá. Pode adoçar o chá com mel, oferece mais água para ele e uma sopinha vai bem.
Dia de visita. Entro em uma casa tão simples, bonita e bem cuidada. Ela me mostra a horta da onde tirou o meu alface. Aquele ambiente limpo, organizado já me trouxe uma paz. O amado estava na mesa da cozinha e tinha uma jarra de suco de tangerina com cenoura que eu, obviamente, não recusei.
– Ah doutor, já estou melhor! Nem precisava. Mas sabe como ela é. Qualquer coisa tem que levar no médico. Ela é muito preocupada. Acho que o chá de guaco e mel tinham dado conta do recado e não precisei acrescentar muita coisa.
Alguns anos depois ela volta ao consultório.
– Meu braço doutor. Quebrou e colou errado.
Já fazia uns 2 meses que tinha sido atendida em um pronto socorro após queda que resultou em fratura de antebraço distal (perto da mão). Cidade pequena, conseguiu ortopedista para 3 dias depois, mas o mesmo estava de férias e ficou com a imobilização por um mês, quando marcaram a consulta.
– O ortopedista disse que agora só cirurgia, tem que quebrar de novo e depois consertar. Eu falei para ele que como ele sai de férias e não coloca ninguém no lugar. Não gostei dele. Não quero aquele médico, não. Mandou fazer fisioterapia por enquanto.
Constato pela deformidade óssea que o ortopedista estava certo. Encaminho para ortopedia (outro já que a relação com o primeiro não estava muito boa) e para fisioterapia. E passo algumas medicações para dor neuropática (por compressão de nervo).
Ela volta alguns meses depois, entra no consultório apresentando uma certa instabilidade ao deambular, que não era seu habitual.
– Fiz fisioterapia não melhorou. Passei no ortopedista que me passou um monte de remédio. Agora parou a dor, mas estou com uma tontura, por isso estou aqui.
Olho a receita com a prescrição de vários medicamentos anticonvulsivantes, antidepressivos, todos usados para dor neuropática.
– Que bom que os remédios melhoraram a dor e a formigação. Mas estou preocupado com os efeitos colaterais, por exemplo, esta tontura. Acho que está com dose alta e que temos que diminuir um pouco, se não a senhora vai acabar caindo de novo.
Ela volta 2 semanas depois:
– Aquele mesmo dia chegando em casa cai de novo, ainda bem que só ralei e não quebrei nada. Quando falei para meu amado que o doutor falou que era do remédio ele disse para eu parar. Ele disse que, quando começou a tomar,  parecia uma bêbada e não era para eu tomar.Sabe doutor ele é muito atencioso, precisa ver como ele chorou quando eu quebrei o braço. Até café da manhã levou para mim na cama. Disse que eu não posso ficar doente. Ele é um amor.
– Acho que a senhora é uma mulher de sorte e ele também por ter você. Voltou a formigar o braço?
– Por enquanto, não.
– Então mantemos sem o remédio. Quando retornar no ortopedista fala que eu tirei porque estava dando muita tontura e a senhora caiu. Não podemos deixar a senhora cair, se não seu amado ficará bravo.
A receita foi só orientações para evitar queda mais uma vez e com medidas para casa, calçados, e até uma bengala que ela não gostou muito.
E o amor estava no ar e o cuidado continua.

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