REBELDE

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Por Antônio Modesto

– Esse aqui é um paciente hipertenso refratário, muito rebelde, toma quatro remédios, que veio acompanhar a pressão – diz a médica que o atende, e que vim supervisionar.
– Isso aí. Graças a Deus ela tá diminuindo – diz o rebelde.
– Isso. Mas a gente tava conversando que ele usa outras coisas também…
– Ah, é? O quê? – pergunto.
– Cannabis.
– Ahn?
– Cannabis.
– Ah, cannabis.
– E ele usa há muito tempo, e eu já disse pra ele que pode prejudicar…
– Pois é, doutor, não vou mentir: faz 59 anos que eu fumo cannabis.
– E fuma quantos baseados por dia?
– Se tiver vinte, eu fumo os vinte!
– Tá, mas, no geral, quantos?
– Ah, na base de uns três, quatro…
– E aí, o que você fez? – pergunto à médica.
– Eu encaminhei ele pro CAPS AD.
– E tem aqui? Tem funcionado?
– Eh… Tinha, fechou, parece que reabriu, mas a psiquiatra do NASF quer atender as pessoas antes da gente encaminhar pra lá.
– E por que você quer parar de fumar cannabis?
– Esquecimento, doutor.
– Esquecimento…
– Pois é, tô muito esquecido. Eu fumo pra fazer tudo: pra comer, pra dormir, pra trabalhar… Pra namorar… Não consigo trabalhar sem fumar, mas, quando eu fumo – eu sou eletricista, já me aposentei, mas pego um serviço de vez em quando – quando eu fumo, aí eu vou passar um fio daqui (e aponta no ar) até aqui (aponta um metro depois). Aí quando eu volto pra cá (o primeiro lugar) eu já não lembro o que que era. Aí isso me prejudica. Mas quando eu paro de fumar eu não como, não durmo, não trabalho… Não namoro…
– Entendi. É, todo mundo sabe que maconha dá esquecimento na hora, e quem fuma muito tempo pode ficar esquecido direto.
– Pois é! E eu não quero isso!
– Acho que pode ser uma boa conversar com a psiquiatra e a Dra. Fulana, mesmo. Porque se você conseguisse passar pra um baseado ao dia, já era uma grande conquista!
– Eu disse isso a ele! – interpela a médica. – Faz um pequenininho e vai fumando aos poucos…
– Não dá, doutora! Eu tenho muita vontade! Hoje eu tinha consulta e não fumei, mas já tô pensando que quando eu chegar em casa eu já vou fumar um… E se eu apertar um fininho (aponta pro meio do indicador), daqui a meia hora eu tô com vontade de novo! Prefiro apertar um grandão, grossão, assim (estica o polegar e o indicador), um charutão, que vai levar umas duas horas pra me dar vontade de novo.
– Mas vê, você pode fazer que nem a gente fala pra fazer com cigarro: quando der vontade, enrola, deixa pra fumar um pouco depois… E outra: às vezes demora pra ficar doidão, então…
– Eu não fico doidão, não, doutor. Eu fumo e fico relaxaaado…
– Sim, claro, não quis dizer doidão de ficar malucão, quis dizer que a onda demora a bater. Então você pode ir maneirando, fuma pouco, espera bater, quando der vontade embroma um pouco, faz outra coisa…
Tivemos um pouco mais de conversa e eu já achava que estávamos perto de nos despedir, quando, súbito, surge uma receita azul na mesa, diante dele: alprazolam diário. Confiro o carimbo, é da médica do meu lado, de hoje.
– Por que você passou alprazolam pra ele?
– Porque ele tem se queixado de ansiedade, tem tido insônia, às vezes fica muito irritado, e quando ele veio pra mim, ele já usava e eu suspendi. Aí agora passei de novo por causa dessas coisas…
– Péra, mas então por que ele não continua usando maconha? Se ele fuma pra dormir e ficar relaxado, mas quer parar porque tá tendo esquecimento, a gente vai tirar a maconha e dar um remédio pra dormir e ficar relaxado que também dá esquecimento e causa muito mais dependência?
– É…
– É…
– Então, o que você acha?

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