Quebrada medicina

por Gabriela Machado

Acordo empolgada, tomo banho e saio apressada depois do café. É meu primeiro dia. Dentro do 539 a primeira coisa que descobri no meu estágio de medicina de família e comunidade é que pra ser motorista de ônibus na Rocinha, o cara tem que ser bom. A rua de mão dupla que corta a comunidade é disputada por carros, caminhões, crianças, cachorros, gatos, latas de lixo, bicicletas e infinitas motos que surgem de todos os lados como formigas que tem sua casa destruída. Sem falar das curvas, da fiação, do outro ônibus que vem na direção oposta, a feira, enfim, são muitos obstáculos e eu de dentro da janela olhava tudo com muita curiosidade e entusiasmo. Quando chego na clínica já quero sair. Desde o início o que eu mais queria era participar das visitas domiciliares. Assim, eu estaria dentro da história que as pessoas iam me contar na anamnese. A casa era uma ruína. As paredes sem reboco estavam sujas e havia latas de cerveja espalhadas por todo chão. Era um dia muito quente no Rio e era uma da tarde, mesmo assim estava tudo fechado e eles acabavam de acordar. No quarto tinham 3 pessoas. Um homem, uma mulher e uma criança. O colchão estava imundo e tinha vários furos. As roupas se amontoavam no outro canto. O cheiro dava náuseas. A criança tinha 2 anos e o homem mutilado não era o pai. A mãe ex-usuária de drogas vivia da prostituição. “Ontem ela teve uma crise sozinha, doutora. Estava só ela e o J.”, disse o homem se dirigindo a enfermeira que eu estava acompanhando. Inicia-se a conversa, mas eu já não estou mais ali.

Tudo se apagou, não há mais limites. Nem, eu, nem tu, nem eles. Não sinto mais o odor desagradável que estava preso dentro daquelas paredes. Me sinto perdida, sinto que repito com meu filho a história que vivi com minha mãe. Quando ela, ainda mal após eu aprender a andar me colocava para ir buscar cocaína pra ela na boca de fumo. A mesma boca que hoje não quer mais vender pra mim. Que não aceita mais meu corpo em troca de nada. Não tenho espelhos em casa. Prefiro que a luz fique do lado de fora. E por mais que eu tente fazer diferente me vejo colocando meu filho debaixo da mesma laje.

Olha, tem uma igreja ali na lagoa que está doando cesta básica. Nos despedimos. Vamos descendo o morro e no caminho tem dois homens ensopados de suor subindo com uma geladeira nas costas.

Volto pra casa com aquela mulher presa na minha garganta, parafraseando o poeta num contexto bem diferente, porém envolvendo o “deslimite” provocado pela amorosidade. Então depois de muito tempo descobri que naquele dia algo se quebrou. Eu já sabia, mas só me dei conta quase um ano depois. Uma vez ouvi de um amor que, por sua vez tinha visto em um filme, uma frase que carrego até hoje e diz que é quando algo se quebra que há espaço pra luz entrar. Pois bem, eu não acredito mais na alva medicina que me ensinam não só na faculdade, mas muito antes de eu pensar que seria médica um dia. Aquela que abraça, mas cega. Que medica, mas não cuida. Que trata, mas não acolhe. Ainda que pregue que sim. A medicina eu aprendi nos terreiros, sentada na soleira degustando mate, ou café, ou suco de pozinho achando que era suco natural, que aprendi na mata, nas histórias da boca da gente que é feita muito mais de terra. Creio é nessa que bate e faz quebrar. Nessa que venta e cria temporais. E faz sabendo que assim abre o caminho pra verdade. Que não é bem-vinda à primeira vista, mas que também dá o colo no momento que ele cabe. Que é esse discernimento do tempo certo das coisas. Que valoriza a carcaça, mas que bebe mesmo é do profundo. Pois é lá, através de si mesmo, que mora a cura e o bálsamo.

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