Renovação

Autor: Lucas Gaspar Ribeiro

Quando terminei a residência de medicina de família meu sonho era estar na minha própria unidade. Construir a unidade de saúde da família com a minha cara, quem nunca sonhou com isso? Pois bem, 48 dias após o fim da residência, lá vou eu começar esse projeto. Entrei em uma unidade que naquele momento estava deixando de ser uma UBS* com agentes comunitários e se tornando uma USF**, eu e outra parceira, 2 equipes, mais de 20 funcionários. Aquela unidade dos sonhos sabe? Com farmácia, sala de curativo e de coleta, vacina, equipe de odonto. Nossa, um local que tem tudo para ser resolutivo!

Logo na primeira semana de “vida”, já fica claro uma grande briga entre a enfermagem e os agentes comunitários de saúde, que dificulta muito o processo de trabalho de todos ali. E agora, entrei agora, o que eu posso fazer? Fico quieto? Me envolvo?  Junto disso, ainda temos que anteder uma demanda muito reprimida, pois chego na unidade todos os dias e tem um sem número de pessoas na recepção. O que eu faço? Tento lidar com a demanda? Tento lidar com a equipe? Faço tudo isso? Mas como, não consigo sair do consultório!! Essas coisas ninguém ensinou em minha formação. Ser médico de família é muito mais que a integralidade, o trabalho em equipe, a resolutividade..Mas sim também a gestão, é lidar com o caos, é 220V o tempo todo!! E isso que estou vivenciando apenas a primeira semana de médico de família e comunidade. Será que vou dar conta?

Lá se vai um mês, dois.. Conseguimos, colocamos todos para conversar, para expor as dificuldades, para buscar soluções, para melhorar o cuidado. Afinal, trabalhar em equipe, trabalhar na saúde da família, é ser uma família, é viver com altos e baixos. Acho que agora vai, já estamos trabalhando junto, já estamos aproximando a comunidade, já conseguimos lidar com o caos.

Mas não..espera..e essas pastas familiares? Porque somente os ACS têm acesso a elas? Será que é porque ficam guardadas em locais diferentes dos prontuários individuais? Vamos Juntar? Sim, vamos – dizem todos! Espírito de equipe, gente guerreira, gente que quer mudar, melhorar, crescer. Lá se vai mais um tijolo na construção da nossa USF, mais uma bagunça para aumentar o caos, mais uma carga para aumentar a voltagem!!!

No fim do dia, no meio da bagunça – de tantos e tantos pacientes atendidos naquele dia, na dificuldade de sair consultório para ver como a equipe está agindo, trabalhando, organizado e reorganizado, exausto, quase sem forças – porque durante os 20 e tantos atendimentos do dia não posso parar de pensar em como essa equipe, a minha equipe, a nossa equipe está se organizando, está fazendo, eu ouço de meu último paciente, logo perto das 17h: Doutor, o senhor está muito famoso aqui no bairro, todos falam muito do senhor, e agora entendo o porquê. Só espero que fique muitos anos aqui conosco porque essa gente precisa de médico que gosta de gente, de atender, de trabalhar, e que tem amor para os pacientes nos olhos, como o senhor têm.

Pronto – todas as esperanças renovadas, que venha mais um dia, que venham todas as lutas do dia a dia. São essas pequenas frases que abastecem essa USF**, essa equipe, esse coração que vos escreve….

*UBS: Unidade de atendimento cujo formato da equipe é multiprofissional, a qual engloba também médicos pediatra, ginecologista  e clínico.

**USF: Unidade de atendimento cujo formato da equipe é multiprofissional e engloba um médico, preferencialmente, Médico de Família e Comunidade, especialista em atendimento da família toda e da comunidade.

 

juntos

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