O nome que ninguém vê

por Bianca Forreque

O nome dele, poucas pessoas sabem. Conhecem-no pelo apelido. Já havia conversado com ele uma vez, embora nunca tivesse marcado uma consulta médica comigo. Aliás, ele quase nunca vai ao médico. Mas às vezes ele visita a Unidade de Saúde – para fazer curativo. Ele tem 60 anos, é negro e… onde mora? Em todo lugar. Tem uma casinha muito humilde no território, mas não adianta bater à porta: ele praticamente nunca está lá.

     Hoje ele procura atendimento, não na recepção, mas novamente na sala de curativos. Sou chamada e vou atendê-lo também. A conversa é prejudicada pelo estado em que ele se encontra. O cheiro do álcool misturado a um odor pútrido impregna o lugar. Provavelmente ele não se banha há dias. Ri muito e brinca comigo e com a técnica de enfermagem ao meu lado, mas ao examinar suas feridas o riso dá lugar ao gemido. A perna está com várias fissuras, muitas lesões crostosas, fétidas. Entre os dedos crescem desenfreadamente fungos em lesões úmidas esbranquiçadas. Respiro fundo – o cheiro arde nos pulmões. Para iniciar o tratamento, preciso saber como anda seu fígado, e há muito tempo ele não faz exames. Mas, à medida que a conversa progride, fico ainda mais preocupada com a periodicidade de outra coisa: há muitas horas ele não come. Na verdade, nos revela que não consegue ao menos almoçar todo dia.

     Algumas pessoas talvez pensariam que aquele atendimento fosse tempo perdido, um problema sem solução, mas eu não conseguia me acomodar ao incômodo daquele homem. Há quem vá reproduzir o discurso: “morador de rua é tudo vagabundo, mesmo” – mas enquanto eu verificava suas feridas, só conseguia me lembrar do que ele já havia me contado meses atrás.

     Foi numa prosa despretensiosa, na sala de curativos mesmo, que ele me narrou sua história – e então pude entender por quê passa a maior parte da sua vida nas ruas. A história desse homem foi marcada por perdas – primeiro o filho mais velho, assassinado num conflito associado ao tráfico de drogas; depois a mulher, que apesar de ainda morar aqui no bairro, decidiu separar-se dele (já que ele não se separava da garrafa de cachaça). Bebida, essa, que era o único alívio para o sofrimento de ter sepultado um filho. À medida que o relato ganhava forma, sua voz se embargou até o momento em que ele desabou em lágrimas. Via-se livre dessa água salobra, enquanto ela escorria pelo rosto – mas queria mesmo era expurgar sua culpa: pelo que fez e pelo que deixou de fazer durante todos esses anos. Chegou aos 60 anos com apenas um sentimento mais forte que a vontade de continuar vivo: o arrependimento. E agora só hão de aceitá-lo, com seus erros: o álcool e as ruas.

     O nome dele, poucas pessoas sabem. Conhecem-no pelo apelido. Mas poderia ser João, Pedro ou Paulo. Poderia ter o mesmo nome que o seu. Poderia até mesmo ser você. Ou seu pai. Porque ele é um cara comum, habitando as ruas que a gente também habita – mas mantendo uma relação diferente com elas. Um cara comum, com uma história, muitas dores, muitos sofrimentos e poucos fatores de alívio. Um cara que sente fome. Um cara com um nome – que a gente teima em ignorar, enquanto anda pelas ruas, pra lá e pra cá.

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