Sentindo o ser “Médica de Família”

por Carla Rezende

Eu andava meio “jururu”, meio sem ânimo pro trabalho, sem energia pra criar, reciclar, propor, melhorar, caminhar pra frente…

Aí, esta semana, alguns pacientes me relembraram o que é que eu estava fazendo ali, qual era a minha serventia, por que eu havia escolhido esta especialidade:

Seu Marivaldo, um senhor de 54 anos, veio pra sua primeira consulta. Queria fazer uns exames e que eu o encaminhasse para um urologista, pois estava tendo problemas no seu desempenho sexual. Vou conversando, perguntando coisas de rotina de uma anamnese inicial. E ele vai respondendo e se sentindo mais à vontade. Aí ele começa a contar de dificuldades relacionais com sua esposa, atitudes de humilhação dela com ele, a sua percepção de que seu valor, seu esforço pra trabalhar e cuidar da casa, seu cuidado com o comércio que tinham juntos, nada disso era valorizado por ela. Que há muito tempo vem se sentindo assim. Que chegou ao ponto de escutar calado suas humilhações porque não gosta de conflito, não quer piorar as coisas. E então disse: “Mais deixa isso pra lá, doutora…”. E eu falei: “Mas seu Marivaldo, se o sr. me permite, acho que devemos sim continuar esta conversa, pois ela tem tudo a ver com a queixa que o sr. me trouxe! E continuamos a conversar e eu a lhe colocar as minhas percepções de quem está “de fora” da situação, do que me soava aquilo tudo… “O sr. percebe que ela lhe humilha, mas há muito tempo o sr. se deixa humilhar? Já pensou o porquê? Eu acho que vocês precisam conversar, seu Marivaldo, que o sr. precisa colocar o que está sentindo, tentar encontrarem juntos uma solução…” “Eu tenho medo que ela me diga um NÃO”, ele disse. E lá fomos nós pensar o que fazer com esse medo, o que ele significava, etc, etc… No fim da consulta, seu Marivaldo me diz: “Doutora, eu não arrumei uma médica. Eu, com a senhora, arrumei uma amiga!”.

Teve D. Maria Oneide, 67 anos, que fui ver numa visita domiciliar. A agente de saúde me disse que ela andava muito chorosa e medrosa. Cheguei lá e, no meio da conversa, ao informá-la de que iria encaminhá-la ao oftalmologista por conta de um pterígio (uma massa que vai crescendo na conjuntiva e pode afetar a visão) para fazer uma curetagem, ela começa a chorar e me diz: “Quero não, doutora Carla! O povo tá dizendo que arrancam o olho da gente pra colocar olho de defunto no lugar!! Afe, nossa Senhora!” E expliquei com jeito de que não se tratava de transplante, etc, etc. Ela ficou tão aliviada e agradecida pelo simples esclarecimento, ficou sorridente por saber que o procedimento iria evitar que ela perdesse a visão e me deu um abraço apertado na hora em que saí de sua casa.

E seu Moisés. Ele faleceu há poucos dias por um câncer de faringe. Vinha sendo acompanhado por mim há vários meses. Era um cara sorridente e bem-humorado, gostava de vir às consultas para conversar e espairecer. Dizia que era o entretenimento dele nesse último período em que estava fazendo muitas sessões de quimioterapia e já se sentia muito debilitado. Ríamos juntos da sua cabeça-dura de não querer seguir algumas recomendações do oncologista. Eu, conversando, sempre dava um jeito de driblar sua implicância e convencê-lo da importância das recomendações. Soube pela agente de saúde de seu falecimento e pedi pra que avisasse a sua esposa de iria vê-la no início da próxima semana. Cuidamos juntas dele (ela muito mais que eu, claro). Temos muito do que lembrar, do que rir e do que chorar juntas. Preciso abraçá-la e apoiá-la. E agora, voltar a cuidar dela, pois é diabética e não estava conseguindo seguir o acompanhamento clínico comigo por conta de seu marido.

E por fim, Marília, uma mãe de 18 anos, trazendo a filhinha Yasmin de 1 ano e 6 meses, que nasceu pré-matura e tem baixo-peso. Marília teve Yasmin muito nova. O pai da criança atualmente está preso. Foi preso há poucas semanas e desde então Yasmin parou de comer normalmente. Só mama no peito. Come muito pouco as outras comidas. Ao entrar na minha sala, vejo Marília “empurrando goela abaixo” uma colher de iogurte na boca da menina. A criança chorava e eu estava vendo a hora dela aspirar o iogurte e não engolí-lo, como desejava a mãe. Durante toda a consulta Marília tratou a criança com gestos ríspidos e pouco amorosos. Queria que eu desse uma vitamina pra menina voltar a se alimentar, que ela já não aguentava mais a criança pendurada em seu peito. A criança já havia até perdido peso. Escuto suas queixas e, ao final, enquanto examino a criança, converso com a mãe. Digo que percebi que ela estava exausta, sentindo-se muito só com o marido preso e sem entender porque a criança estava daquele jeito, tão agarrada a ela, tão chorona e dando tanto trabalho pra comer. Digo que as crianças pequenas reagem de forma diferente às situações de tristeza, insegurança, saudade ou estresse, pois elas ainda não sabem se expressar pela fala. Mas que elas compreendiam o que nós falávamos pra ela. Então, que ela conversasse com sua filha. Que dissesse que seu pai estava bem, que iria voltar um dia pra casa. E que ele e ela a amavam muito. Que ela estava cansada, então pedisse à criança para ajudá-la um pouco. Que tivesse paciência, muita paciência na hora da alimentação. E que tentasse tratar a filha com mais carinho, sem repassar a dor que ela estava sentindo na sua atitude para com a criança… Quando saiu da sala, Marília deu um beijinho em Yasmin enquanto riam juntas de uma brincadeira qualquer.

Pois. É lógico que ser “Médica de Família” é muito mais do que isso. Mas isso tudo me dá a dimensão dessa especialidade que me faz sentir realmente a vocação que tenho e do que mais gosto de fazer na medicina: cuidar das PESSOAS.

Só tem um detalhe que eu ainda não aprendi a me relembrar e a fazer parte do meu cotidiano, pra que eu possa me dedicar de forma mais saudável a esse ofício: cuidar melhor de MIM!

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