Médico para inglês ver

Por Vitor Lima Barreto

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Eu havia chegado em Londres há dois meses para o doutorado e estava sedento por conhecer o sistema de saúde inglês. Já havia lido muito sobre o mesmo, mas agora teria a possibilidade de experimentá-lo como pesquisador, profissional e principalmente como usuário. Eu estava caçando uma oportunidade para conhecer meu General Practioner (GP, o médico de família inglês). Me registrei no posto mais próximo da minha casa (a três paradas de ônibus). Fui então atendido pela enfermeira, que fez uma primeira avaliação de minha saúde.

Como a nossa vontade tarda, mas não falha, logo tive minha primeira consulta com a médica. Num belo dia de inverno chuvoso londrino, percebi que meu xixi estava avermelhado. Minha primeira reação foi de susto: “Sangue!”, pensei. Um motivo de preocupação. “Vou beber bastante líquido e observar as próximas vezes que for ao banheiro…”. De toda forma, não queria perder a oportunidade de conhecer minha nova médica. Levantei uma série de possibilidades de doenças e pensei qual seria sua conduta. Nos curtos 5 minutos de consulta médica, ela provavelmente ouviria apenas esta queixa principal, pediria uma amostra da minha urina e faria um teste rápido (tipo dipstick). Se houvesse sangue, eu entraria na investigação diagnóstica e em breve saberia meu problema, caso não, voltaria para casa e observaria qualquer outra alteração. Dito e feito! A consulta não durou sequer os cinco minutos, e eu nem lembro o nome ou o rosto da GP. Voltei para casa tranquilo de estar fisicamente bem, mas obviamente desapontado com o encontro.

Não sabiam nem a médica nem inicialmente eu que meu sintoma e minha procura por ajuda tinham outros sentidos. No meu íntimo, eu estava vivendo várias experiências que trouxeram uma outra dimensão ao meu suposto problema de saúde. A mudança para um outro país, longe da família e amigos havia mexido muito comigo. Eu estava me sentindo um “alien”. A solidão me tornara frágil, e por vezes temendo me perder, ser assaltado, adoecer, morrer. Um de meus gatos estava com um problema urinário que resultava em episódios de obstrução. Ele sentia dor ao urinar e às vezes sangrava. Ele estava prestes a fazer um exame que determinaria se ele poderia ser operado ou se precisaria ser sacrificado. Isto me sensibilizara ainda mais. O meu xixi avermelhado, resultado de um suco de beterraba que tomei, acabou sendo o baú onde depositei todos os meus sentimentos difíceis nesta época. E apesar da minha primeira justificativa (conhecer meu GP), eu estava na verdade a procura de um porto seguro para minhas ansiedades. Não o encontrei, como esperado em uma consulta de cinco minutos. Apesar disto, entendi um pouco mais sobre mim mesmo e sobre os papéis possíveis para um médico de família exercer (consultar e acolher) em qualquer parte do mundo.

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