Só um mioma…

poder-es-capaz

por Rodrigo Lima

Durante o horário de atendimento sempre somos visitados no consultório por profissionais da equipe de saúde que desejam discutir um caso, ouvir uma opinião, ou passar alguém para nós vermos. Um dia uma das enfermeiras me perguntou se eu poderia ver uma mulher de pouco mais de 50 anos que estava preocupada com os resultados de um exame. Olhei o exame: era uma ultrassonografia dos órgãos pélvicos que mostrava um mioma. Respondi que sim (quase sempre a gente consegue encaixar quem chega preocupado assim).

Quando a paciente entrou tivemos o diálogo a seguir:

– Opa, tudo bom?

– Tudo.

– Então, a enfermeira me disse que a senhora queria falar comigo hoje mesmo por causa do resultado desse exame…

– Foi, doutor.

– Vamos lá. O que é que tá preocupando a senhora?

– É que eu fico com medo de ser uma doença grave.

– Não, mioma não é uma doença gra…

– (choro súbito, intenso) Minha mãe morreu de câncer de útero!

– Ok. Me conta essa história melhor. Faz tempo isso? Quantos anos ela tinha? A senhora sente algo parecido?

– Ela tinha 94, faz pouco tempo. Ela tinha muito sangramento, e eu também tenho!

– Tudo bem. Olha só, você já tem dois exames, ambos mostram apenas o mioma. A gente sabe que mioma não vai virar uma doença grave. Como a senhora tem tido esse sangramento e está preocupada com ele, e tem esse antecedente na família, a gente vai investigar melhor, vou te encaminhar a um ginecologista. Mas essa consulta deve demorar um pouco, e eu queria muito que a senhora ficasse um pouco mais tranquila em relação ao seu problema. Senão a senhora vai esperar semanas pela consulta e nesse tempo não tem quem aguente tanta preocupação. A senhora entende quando eu falo que mioma é uma coisa e câncer é outra?

– (mais calma) Entendi.

– Então pronto. Nesse tempo que aguarda a consulta, é importante que fique tranquila em relação a não ter uma doença grave. Se tiver alguma dúvida é só vir pra cá.

– Meu marido disse que vai torcer pra ser câncer mesmo pra ver se eu morro logo.

– (nó na garganta) Vocês não estão bem, né? Faz tempo?

– Faz. Desde que meus filhos saíram todos de casa que ele fica dizendo que eu devia ter ido embora também.

– E seus filhos, vivem por perto? O que eles pensam?

– Eles não dizem nada não….

– Ok. Depois a gente vai conversar mais sobre isso. Queria que a senhora voltasse outro dia pra gente continuar essa conversa. Sobre o mioma eu espero ter te tranquilizado. Sobre o marido, bem, o que posso te oferecer é a sugestão de pensar um pouco sobre isso tudo e depois voltar aqui.

– Já pensei. (levanta a cabeça) Eu tenho é que me livrar desse traste. Não dependo dele pra nada, ele é que depende de mim. Obrigado, doutor.


p.s. Não sei quem é o/a autor/a da imagem, mas copiei de outro blog recomendadíssimo que você pode ver aqui

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