Um grelo anônimo

por Carolina Reigada

Quando enviei esse causo aos meus amigos escritores deste blog, fiquei na dúvida se ele seria censurado. Mas, para minha alegria, a resposta geral foi: “Censura, que nada!”. Sendo assim, um viva à liberdade de expressão e outro às pessoas maravilhosas que escrevem por aqui.

Bom, aconteceu durante a minha residência médica em Medicina de Família e Comunidade, em Manguinhos.

Para quem não conhece, Manguinhos é uma comunidade muito vulnerável no Rio de Janeiro. Carente de estrutura, dominada pelo tráfico e pela violência. Como geralmente acontece nessas situações, é o bom humor que salva da loucura do dia-a-dia.

Pois bem, estava eu atendendo dentro do consultório no sábado de manhã. Clínica cheia, apesar de ser fim-de-semana. Saiu um paciente do consultório, agradeceu, deixou a porta entreaberta, enquanto eu acabava de fazer anotações em seu prontuário.

Eis que entra reboleante pela porta, de macacão de lycra colado ao corpo voluptuoso, uma morena de cabelos cacheados, lindos, já falando alto:

“Dra, é rápido, olha só!”

E escancarou a porta.

“Só preciso que a sra olhe um negócio!”

E abaixou a parte de cima do macacão.

“O negócio tá ficando enorme!”

E abaixou o macacão e a calcinha.

“Olha o tamanho do meu grelo!”

E colocou seu grelo logo na linha da minha visão, já que eu estava sentada digitando, e havia parado no meio de uma frase de pouca importância, como “oriento início de AAS para prevenção secundária de infarto agudo do miocárdio”.

Recuperando um pouco do meu bom senso, sugeri:

“Talvez não é melhor fechar a porta?”

“Ah, é! Nossa! Que cabeça!”

E tapou o grelo para fechar a porta. Deitou na maca para ser examinada.

“A sra anda usando alguma coisa pra malhar, tipo bomba?”

“Claro! Carnaval vem vindo, né?”

“Pois é, é que bomba faz isso: aumenta grelo, engrossa pelo, engrossa voz…”

“Sério? Aí já era! Vou ter que ficar com o grelo grande mesmo”.

E pulou da maca, vestiu o macacão de uma vez, ajeitou os cabelos e já ia saindo.

Ainda sentada no banco em que estava enquanto a examinava, a interrompi quando ela estava com a mão na maçaneta:

“Calma! Não quer conversar sobre os efeitos ruins dessa bomba? Aliás, nem sei seu nome!”

Afinal, eu precisava anotar a consulta no prontuário.

“Ah, dra, coisa boa é assim. Vem rápido e some rápido. Beijo!

Deu um beijo estalado no ar, abriu a porta e saiu rebolativa.

Não descobri o nome.

Chamei o próximo paciente.

Um comentário sobre “Um grelo anônimo

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