Para a Baranga do Meu Coração

por Monica Lima

Para dizer a verdade, penso que na Estratégia de Saúde da família a gente se diverte muito, mesmo, mesmo! É uma coletânea de emoções, por isso nós decidimos escrever um pouco de nós, para fazer rir, chorar, pensar nos valores da vida, na família,  nos que a amamos, até porque, ser médico de família é viver intensamente tudo isso.

Além de nossa vida diária com os pacientes, há toda uma vida com nossa equipe,  por isso decidi contar aqui minha vida com Eliana, pois bem, eu a conheci quando vim para o Vale do Ribeira em 2004, ela era enfermeira da UBS Parafuso, não foi amor a primeira vista não, tinhosa que ela era e eu também,  já nos estranhamos quando ela queria que eu utilizasse um formulário de acompanhamento de gestantes, imagina, 3 linhas pra fazer a evolução , jamais! Gosto de escrever pra xuxu, seria tão terrivelmente castrante , limitante, coercitivo que disse não. Nem morta filha!!!

Pronto, prato cheio pra o gestor, que já a odiava, e de mim gostava menos ainda (tenho essa capacidade de fazer os gestores me odiarem, geralmente na primeira semana me amam, minha cordialidade com os pacientes, pego  a mão na sala de espera, levo com carinho pra sala, dou atenção, os prefeitos ficam nas nuvens!! Até que eu começo a cobrar atitudes, então,  pimba, já sou inimiga número 1, fazer o quê? Então o diretor de saúde teve uma ideia, vou botar essas duas para trabalhar juntas, elas vão se matar de ruim que são – pensou o nobre gestor.

E foi a coisa trabalhar comigo, primeiro dia, corre daqui, corre dali, resolve isso e aquilo, acolhe, cuida, orienta, planeja, reunião em grupo, educação em saúde,  e no fim do dia eu já estava de 4 por ela, e acho que ela por mim, parceria pura, cordialidade, carinho,  compromisso, resolutividade, inteligência, sensibilidade (da parte dela, claro).

É claro que isso não agradou a gestão,  se deveríamos estar mortas, mortinhas assassinadas uma pela outra, nosso amor a saúde da família nos fez apaixonadas uma pela outra, então já tramaram nossa separação,  se separadas éramos um perigo, juntas implodiríamos o sistema, fizeram de tal forma que ela foi a última a saber que seria transferida (até os usuários já sabiam) e eu seria condenada a pagar meus pecados com uma enfermeira que não era pontual, não era assídua e não cumpria com os compromissos assumidos (morte certa para alguém com meu perfil que não cheguei atrasada nem do dia do meu casamento).

O desembrulhar desse imbróglio foi deprimente, acabei sendo demitida (desliguei o telefone da cara do diretor do departamento), ela foi banida para outro bairro (mas essa parte foi boa pra ela porque tinha uma equipe boa lá, então não sofreu muito, apesar do chefe tê-los deixado muitas vezes sem medicação porque sabia que punir os pacientes seria o mesmo que tortura-la, acho que ele tinha um prazer mórbido).

E eu andei, andei, trabalhei em vários outros municípios,  ate retornar à trabalhar em Cajat. De tanto espernear consegui que trabalhássemos juntas de novo, acho que os convenci de que juntas fazemos estrago em um lugar apenas.

E pelos corredores ela me grita: Macacaaaaa!!! E eu grito: Barangaaaaaa! ! E vamos cuidando, orientando, educando, cozinhando, discutindo, planejando,  rindo horrores, chorando baldes. E Saúde da Família é isso, o dia a dia, os enfrentamentos, o a ajuntamentos, os separamentos  (essa acabei de inventar). Se vale a pena trabalhar com a enfermeira dos meus sonhos? Vale muito a pena, pois se nos falha a gestão,  se os pacientes não nos  compreendem e nos pressionam para fazer “do jeito deles” é a equipe que nos mantém sãos, até certo ponto… Mas essa é outra história.

Obrigada Baranga, te amo.

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